domingo, 17 de janeiro de 2021

DIFERENTES CATEGORIAS DE MUNDOS HABITADOS

3. Do ensinamento dado pelos Espíritos, resulta que os diversos mundos estão em condições muito diferentes uns dos outros quanto ao grau de adiantamento ou de inferioridade de seus habitantes. Dentre eles, há os que ainda são inferiores à Terra, física e moralmente, outros são do mesmo grau e ainda há outros que são mais ou menos superiores em todos os sentidos. Nos mundos inferiores a existência é toda material, as paixões reinam soberanamente, a vida moral é quase inexistente. À medida que esta se desenvolve, a influência da matéria diminui, de tal modo que, nos mundos mais avançados, a vida é, por assim dizer, toda espiritual.

4. Nos mundos intermediários há a mistura do bem e do mal, predominando um ou outro, conforme o grau de seu adiantamento. Embora não se possa fazer uma classificação rigorosa e precisa dos diversos mundos, podemos, considerando-se sua situação, destinação e características mais acentuadas, dividi-los, de uma maneira geral, desta forma: mundos primitivos, onde se dão as primeiras encarnações da alma humana; mundos de expiações e de provas, onde o mal predomina; mundos regeneradores, onde as almas que ainda vão expiar buscam novas forças, repousando das fadigas da luta; mundos felizes, onde o bem supera o mal; mundos celestes ou divinos, morada dos Espíritos puros, onde exclusivamente só reina o bem. A Terra pertence à categoria dos mundos de expiações e de provas e por isso o homem é alvo de tantas misérias.

5. Os Espíritos encarnados em um mundo não estão ligados indefinidamente a ele e não cumprem nele todas as fases progressivas que devem percorrer para chegar à perfeição. Quando atingem o grau máximo de adiantamento no mundo em que vivem, passam para um outro mais avançado e, assim, sucessivamente, até que cheguem ao estado de Espíritos puros. São de igual modo estágios, em cada um dos quais encontram elementos de progresso proporcionais ao seu adiantamento.

Para eles, é uma recompensa passar para um mundo de uma ordem mais elevada, como é um castigo prolongar sua permanência em um mundo infeliz, ou ter que reencarnar num mundo ainda mais infeliz do que aquele que são forçados a deixar, por terem persistido no mal.

 

HOJE, ONDE ESTIVERMOS

 

"Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de

Deus é a vida eterna em Cristo Jesus Nosso Senhor."

- Paulo. (ROMANOS, 6:23.)

 

Para os que permanecem na carne, a morte significa o fim do corpo denso; para os que vivem na esfera espiritual, representa o reinicio da experiência.

De qualquer modo, porém, o término cheio de dor ou a recapitulação repleta de dificuldades constituem o salário do erro.

Quanta vez temos voltado aos círculos carnais em obrigações expiatórias, sentindo, de novo, a sufocação dentro dos veículos fisiológicos para tornar à vida verdadeira?

Muitos aprendizes estimam as longas repetições, entretanto, pelo que temos aprendido, somos obrigados a considerar que vale mais um dia bem vivido com o Senhor que cem anos de rebeldia em nossas criações inferiores.

Infelizmente, porém, tantos laços grosseiros inventamos para nossas almas que o nosso viver, na maioria das ocasiões, na condição de encarnados ou desencarnados, ainda é o cativeiro a milenárias paixões.

Concedeu-nos o Senhor a Vida Eterna, mas não temos sabido vivê-la, transformando-a em enfermiça experimentação. Daí procede a nossa paisagem de sombra, em desencarnando na Terra ou regressando aos seus umbrais.

A provação complicada é consequência do erro, a perturbação é o fruto do esquecimento do dever.

Renovemo-nos, pois, no dia de Hoje, onde estivermos. Olvidemos as linhas curvas de nossas indecisões e façamos de nosso esforço a linha reta para o bem com a Vontade do Senhor.

Os pontos minúsculos formam as figuras gigantescas.

As coisas mínimas constroem as grandiosas edificações. Retiremo-nos das regiões escuras da morte na prática do mal, para que nos tornemos dignos da vida eterna, que é dom gratuito de Deus.

 

Livro Vinha de Luz – Espírito Emmanuel – Médium Francisco Cândido Xavier.

domingo, 10 de janeiro de 2021

DIFERENTES SITUAÇÕES DA ALMA NA ERRATICIDADE

1. Que não se perturbe vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse, eu já vos teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar. E após ter ido e vos preparado o lugar, eu voltarei, e vos retomarei para mim, a fim de que lá, onde eu estiver, vós estejais também. (João, 14:1 a 3)

2. A casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito e oferecem aos Espíritos que neles encarnam as moradas apropriadas ao seu adiantamento.

Independentemente da variedade dos mundos, estas palavras também podem ser entendidas como o estado feliz ou infeliz do Espírito na erraticidade, conforme seu grau de pureza e se ache liberto dos laços materiais, o ambiente onde se encontre, o aspecto das coisas, as sensações que experimente, as percepções que possua, podendo tudo isso variar ao infinito. Assim é que, se uns não podem se afastar dos locais onde viveram, outros se elevam e percorrem os espaços e os mundos. Enquanto alguns Espíritos culpados perambulam sem destino nas trevas, os felizes desfrutam de uma claridade resplandecente e do sublime espetáculo do infinito. Enfim, enquanto o mau, atormentado de remorsos e de lamentações, muitas vezes só, sem consolação, separado dos objetos de sua afeição, padece torturado pelos sofrimentos morais, o justo, reunido aos que ama, goza das doçuras de uma indescritível felicidade. Portanto, lá também há muitas moradas, embora não sejam nem delimitadas, nem localizadas.

EDIFICAÇÃO DO REINO

"O Reino de Deus está no meio de vós." - Jesus. (LUCAS, 17:21.)

Nem na alegria excessiva que ensurdece.

Nem na tristeza demasiada que deprime.

Nem na ternura incondicional que prejudica.

Nem na severidade indiscriminada que destrói.

Nem na cegueira afetiva que jamais corrige.

Nem no rigor que resseca.

Nem no absurdo afirmativo que é dogma.

Nem no absurdo negativo que é vaidade.

Nem nas obras sem fé que se reduzem a pedra e pó.

Nem na fé sem obras que é estagnação da alma.

Nem no movimento sem ideal de elevação que é cansaço vazio.

Nem no ideal de elevação sem movimento que é ociosidade brilhante.

Nem cabeça excessivamente voltada para o firmamento com inteira despreocupação do valioso trabalho na Terra.

Nem pés definitivamente chumbados ao chão do Planeta com integral esquecimento dos apelos do Céu.

Nem exigência a todo instante.

Nem desculpa sem-fim.

O Reino Divino não será concretizado na Terra, através de atitudes extremistas.

O próprio Mestre asseverou-nos que a sublime realização está no meio de nós.

A edificação do Reino Divino é obra de aprimoramento, de ordem, esforço e aplicação aos desígnios do Mestre, com bases no trabalho metódico e na harmonia necessária.

Não te prendas excessivamente às dificuldades do dia de ontem, nem te inquietes demasiado pelos prováveis obstáculos de amanhã.

Vive e age bem no dia de hoje, equilibra-te e vencerás.

Livro Vinha de Luz – Espírito Emmanuel – Médium Francisco Cândido Xavier.

domingo, 3 de janeiro de 2021

UMA REALEZA TERRENA

Uma Rainha de França - Havre, 1863

8. Quem melhor do que eu pode entender a verdade destas palavras de Nosso Senhor: Meu reino não é deste mundo! O orgulho me perdeu na Terra. Quem, pois, entenderá a insignificância dos reinos da Terra, se eu não o entendi? O que levei comigo de minha realeza terrena? Nada, absolutamente nada. E para tornar a lição mais terrível, a minha realeza nem sequer me seguiu até o túmulo! Rainha eu era entre os homens, rainha eu acreditava entrar no reino dos Céus.

Que desilusão! Que humilhação quando, ao invés de ser recebida como soberana, vi acima de mim, mas bem acima, homens que acreditava serem insignificantes, a quem havia desprezado, pois não tinham sangue nobre! Então compreendi a inutilidade das honras e das grandezas que se procuram com tanto desejo na Terra!

Para se preparar um lugar neste reino celeste, é preciso a abnegação, a humildade, a caridade em toda a sua prática cristã, a benevolência para com todos. Não se pergunta o que foste, que posição ocupaste, mas o bem que fizeste, as lágrimas que enxugaste.

Senhor, Jesus! Disseste que o teu reino não é deste mundo, pois é preciso sofrer para alcançar o Céu, e pelos degraus do trono não nos aproximamos dele. São os atalhos mais difíceis da vida que nos levam para lá. Procura, então, o caminho nas dificuldades e nos espinhos e não entre as flores.

Os homens correm atrás dos bens terrenos como se pudessem guardá-los para sempre; mas aqui não há mais ilusões. Logo percebemos que apenas nos apoderamos de uma sombra e que desprezamos os únicos bens sólidos e duráveis, os únicos que nos seriam úteis na morada celeste, e os únicos que poderiam dar acesso a essa morada.

Tem piedade dos que não ganharam o reino dos Céus. Ajuda-os com tuas preces, pois a prece aproxima o homem do Altíssimo. É o traço de união entre o Céu e a Terra. Não o esqueças.

SIRVAMOS AO BEM

“A luz resplandece nas trevas.” – (João, 1:5.)

Não te aflijas porque estejas aparentemente só no serviço do bem.

Jesus era sozinho, antes de reunir os companheiros para o serviço apostólico. Sozinho, à frente do mundo vasto, à maneira de um lavrador, sem instrumentos de trabalho, diante da selva imensa...

Nem por isso o Cristianismo deixou de surgir, por templo vivo do amor, ainda hoje em construção na Terra, para a felicidade humana.

Jesus, porém, não obstante conhecer a força da verdade que trazia consigo, não se prevaleceu da sua superioridade para humilhar ou ferir.

Acima de todas as preocupações, buscou invariavelmente o bem, através de todas as situações e em todas as criaturas. Não perdeu tempo em reprovações descabidas. Não se confiou a polêmicas inúteis.

Instituiu o reinado salvador de que se fizera mensageiro, servindo e amando, ajudando sempre e alicerçando cada ensinamento com a sua própria exemplificação.

Continuemos, pois, em nossa marcha regenerativa para a frente, ainda mesmo quando nos sintamos a sós.

Sirvamos ao bem, acima de tudo, entretanto, evitemos discussões e agitações em que o mal possa expandir-se.

Foge a sombra ao fulgor da luz.

Não nos esqueçamos de que milhares de quilômetros de treva, no seio da noite, não conseguem apagar alguns milímetros da chama brilhante de uma vela, contudo, basta um leve sopro de vento para extingui-la.

Livro Fonte Viva – Espírito Emmanuel – Médium Francisco Cândido Xavier.

domingo, 27 de dezembro de 2020

O PONTO DE VISTA

5. A ideia clara e precisa que se faz da vida futura dá uma fé inabalável no futuro, e essa fé tem enormes consequências sobre a moralização dos homens, uma vez que muda completamente o ponto de vista sob o qual encaram a vida terrena. Para aquele que se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é infinita, a vida corporal não é mais do que uma passagem, uma curta permanência em um país ingrato. Os reveses e as amarguras da vida terrena não são mais do que incidentes que recebe com paciência, pois sabe que são de curta duração e devem ser seguidos por um estado mais feliz. A morte não tem mais nada de assustador; não é mais a porta do nada, mas a da libertação, que abre para o exilado* a entrada de uma morada de felicidade e de paz. Sabendo que está num lugar temporário e não definitivo, recebe as preocupações da vida com mais tolerância, resultando daí, para ele, uma calma de espírito que suaviza a amargura.

Sem a certeza da vida futura, o homem concentra todos os seus pensamentos na vida terrena. Incerto quanto ao futuro, dedica tudo ao presente. Não enxergando bens mais preciosos do que os da Terra, faz como a criança que não vê outra coisa além de seus brinquedos. Eis porque tudo faz para conseguir os únicos bens que para ele tem valor. A perda do menor de seus bens é um doloroso desgosto. Um descontentamento, uma esperança frustrada, uma ambição não satisfeita, uma injustiça de que é vítima, a vaidade ou o orgulho feridos constituem os tormentos que fazem de sua vida uma eterna angústia, entregando-se assim, voluntariamente, a uma verdadeira tortura todos os instantes. Sob o ponto de vista da vida terrena, no centro do qual o homem está colocado, tudo toma, ao seu redor, enormes proporções. O mal que o atinja, assim como o bem que toque aos outros, tudo adquire aos seus olhos uma grande importância, tal como para aquele que está no interior de uma cidade, tudo parece grande: os homens que ocupam altos cargos e também os monumentos; mas, ao subir uma montanha, homens e coisas vão lhe parecer bem pequenos.

Assim ocorre com aquele que encara a vida terrena do ponto de vista da vida futura: a Humanidade, como as estrelas do firmamento, perde-se na imensidão. Percebe, então, que grandes e pequenos se confundem como formigas sobre um monte de terra; que proletários e soberanos são da mesma estatura, e lamenta que essas criaturas frágeis e transitórias se preocupem tanto para conseguir um lugar que os eleve tão pouco e que por tão pouco tempo conservarão. Assim é que a importância atribuída aos bens terrenos está sempre na razão inversa da fé na vida futura.

APRENDAMOS A AGRADECER

“Em tudo dai graças.”

Paulo, (1ª Epístola aos Tessalonicenses, 5:18.) 

Saibamos agradecer as dádivas que o Senhor nos concede cada  dia:

- a largueza da vida;

- o ar abundante;

- a graça da locomoção;

- a faculdade do raciocínio,

- a fulguração da ideia;

- a alegria de ver;

- o prazer de ouvir;

- o tesouro da palavra;

- o privilégio do trabalho;

- o dom de aprender;

- a mesa que nos serve;

- o pão que nos alimenta;

- o pano que nos veste;

- as mãos desconhecidas que se entrelaçam no esforço de suprir-nos a refeição e o agasalho;

- os benfeitores anônimos que nos transmitem a riqueza do conhecimento;

- a conversação do amigo;

- o aconchego do lar;

- o doce dever da família;

- o contentamento de construir para o futuro;

- a renovação das próprias forças...

Muita gente está esperando lances espetaculares da “boa sorte mundana”, a fim de exprimir gratidão ao Céu.

O cristão, contudo, sabe que as bênçãos da Providência Divina nos enriquecem os ângulos mais simples de cada hora, no espaço de nossas experiências.

Nada existe insignificante na estrada que percorremos.

Todas as concessões do Pai Celeste são preciosas no campo de nossa vida.

Utilizando, pois, o patrimônio que o Senhor nos empresta, no serviço incessante ao bem, aprendamos a agradecer.

Livro Fonte Viva – Espírito Emmanuel – Médium Francisco Cândido Xavier.

domingo, 20 de dezembro de 2020

A REALEZA DE JESUS

4. O reino de Jesus não é deste mundo, é o que todos entendem. Mas, na Terra, não terá Jesus uma realeza? O título de rei nem sempre implica o exercício do poder provisório. Ele é dado por meio de uma concordância de todos aos que, por sua genialidade, colocam-se em primeiro plano numa atividade qualquer, dominando seu século e influindo sobre o progresso da Humanidade. É nesse sentido que se diz: O rei ou o príncipe dos filósofos, dos artistas, dos poetas, dos escritores, etc. Essa realeza, nascida do mérito pessoal, consagrada no tempo, não tem, muitas vezes, maior valor e importância do que aquele que leva a coroa? Ela é imortal e sempre abençoada pelas gerações futuras, enquanto a outra é jogo de oportunidades e, às vezes, amaldiçoada. A realeza terrena termina com a vida; a realeza moral ainda governa, sobrepondo-se além da morte. Sob esse aspecto, Jesus não é um rei mais poderoso do que todos os soberanos? Foi, pois, com razão que disse a Pilatos: Eu sou rei, mas meu reino não é deste mundo.

A EXEMPLO DO CRISTO

“Ele bem sabia o que havia no homem.” – (João, 2:25.) 

Sim, Jesus não ignorava o que existia no homem, mas nunca se deixou impressionar negativamente.

Sabia que a usura morava com Zaqueu, contudo, trouxe-o da sovinice para a benemerência.

Não desconhecia que Madalena era possuída pelos gênios do mal, entretanto, renovou-a para o amor puro.

Reconheceu a vaidade intelectual de Nicodemos, mas deu-lhe novas concepções da grandeza e da excelsitude da vida.

Identificou a fraqueza de Simão Pedro, todavia, pouco a pouco instala no coração do discípulo a fortaleza espiritual que faria dele o sustentáculo do Cristianismo nascente. Vê as dúvidas de Tomé, sem desampará-lo.

Conhece a sombra que habita em Judas, sem negar-lhe o culto da afeição.

Jesus preocupou-se, acima de tudo, em proporcionar a cada alma uma visão mais ampla da vida e em aquinhoar cada espírito com eficientes recursos de renovação para o bem.

Não condenes, pois, o próximo porque nele observes a inferioridade e a imperfeição.

A exemplo do Cristo, ajuda quanto possas.

O Amigo Divino sabe o que existe em nós... Ele não desconhece a nossa pesada e escura bagagem do pretérito, nas dificuldades do nosso presente, recheado de hesitações e de erros, mas nem por isso deixa de estender-nos amorosamente as mãos.

Livro Fonte Viva – Espírito Emmanuel – Médium Francisco Cândido Xavier. 

domingo, 13 de dezembro de 2020

A VIDA FUTURA

1. Tornou a entrar Pilatos no palácio, e chamou a Jesus, e disse: Tu és o rei dos judeus? Respondeu-lhe Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, certo que os meus ministros haveriam de pelejar para que eu não fosse entregue aos judeus; mas por agora o meu reino não é daqui. Disse então Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu o dizes. Eu sou rei. Eu não nasci nem vim a este mundo senão para dar testemunho da verdade; todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. (João, 18: 33, 36 e 37)

2. Jesus diz claramente, por estas palavras, que a vida futura, à qual em muitas circunstâncias se referiu, é a meta a que se destina a Humanidade, devendo ser o objeto das principais preocupações do homem na Terra. Em todos os seus ensinamentos ressalta este grande princípio. Sem a vida futura, de fato, a maioria de seus ensinamentos morais não teriam nenhuma razão de ser. É por isso que aqueles que não acreditam na vida futura, imaginando que Jesus só falava da vida presente, não os entendem, ou os acham ingênuos.

Este dogma pode, portanto, ser considerado como o principal ponto do ensinamento do Cristo. Por isso foi colocado como um dos primeiros, no início desta obra, pois deve ser o objetivo de todos os homens; apenas ele pode justificar as anormalidades da vida terrena e ajustar-se de conformidade com a justiça de Deus.

3. Os judeus tinham ideias muito incertas em relação à vida futura. Acreditavam nos anjos como os seres privilegiados da Criação, mas não sabiam que, um dia, os homens pudessem tornar-se anjos e partilhar da felicidade deles. Pensavam que o cumprimento das leis de Deus era recompensado pelos bens da Terra, pela supremacia de sua nação; pelas vitórias sobre seus inimigos, enquanto as calamidades coletivas e as derrotas eram o castigo da sua desobediência àquelas leis. Moisés não poderia dizer mais a um povo pastor, inculto, que devia estar interessado, antes de mais nada, nas coisas deste mundo. Mais tarde, Jesus veio lhes revelar que há um outro mundo onde a Justiça de Deus segue seu curso, e é este mundo que promete aos que respeitam os mandamentos de Deus e onde os bons acharão sua recompensa. Esse mundo é o seu reino; é lá que Jesus está em toda a sua glória e para onde retornou ao deixar a Terra.

No entanto, Jesus, ajustando seu ensinamento ao estado dos homens de sua época, julgou conveniente não lhes dar uma luz completa, que os ofuscaria ao invés de esclarecê-los, pois não O teriam entendido. Limitou-se a colocar, de algum modo, a vida futura como um princípio, como uma lei da Natureza à qual ninguém pode escapar. Aquele que crê acredita de algum modo numa vida futura, mas a ideia que muitos fazem disso é pouco clara, incompleta, e por isso mesmo em muitos pontos falsa. Para uma grande maioria, é apenas uma crença sem certeza absoluta; daí as dúvidas e, até mesmo, a incredulidade.

O Espiritismo veio completar nesse ponto, como em muitos outros, o ensinamento do Cristo, quando os homens já estavam maduros para compreender a verdade. Com o Espiritismo, a vida futura não é mais um simples artigo de fé, uma incerteza: é uma realidade material demonstrada pelos fatos. São as testemunhas oculares que vêm descrevê-la em todas as suas fases e em todos os seus detalhes, de tal modo que não há mais possibilidade de dúvidas, e a mais simples das inteligências pode compreendê-la sob seu aspecto verdadeiro, tal como imaginamos um país do qual lemos apenas uma descrição detalhada. Assim é que essa descrição da vida futura é de tal maneira mostrada, são tão racionais as condições de existência feliz ou infeliz dos que lá se encontram, que reconhecemos não poder ser de outra forma e que, afinal, aí reside a verdadeira Justiça de Deus.

O GRANDE FUTURO 

“Mas agora o meu reino não é daqui”

JESUS. (João, Capítulo 18, Versículo 36.) 

Desde os primórdios do Cristianismo, observamos aprendizes que se retiram deliberadamente do mundo, alegando que o Reino do Senhor não pertence à Terra.

Ajoelham-se, por tempo indeterminado, nas casas de adoração, e acreditam efetuar na fuga a realização da santidade.

Muitos cruzam os braços à frente dos serviços de regeneração e, quando interrogados, expressam revolta pelos quadros chocantes que a experiência terrena lhes oferece, reportando-se ao Cristo, diante de Pilatos, quando o Mestre asseverou que o seu reino ainda não se instalara nos círculos da luta humana.

No entanto, é justo ponderar que o Cristo não deserdou o planeta. A palavra dEle não afiançou a negação absoluta da felicidade celeste para a Terra, mas apenas definiu a paisagem então existente, sem esquecer a esperança no porvir.

O Mestre esclareceu: — “Mas agora o meu reino não é daqui.”

Semelhante afirmativa revela-lhe a confiança.

Jesus, portanto, não pode endossar a falsa atitude dos operários em desalento, tão-só porque a sombra se fez mais densa em torno de problemas transitórios ou porque as feridas humanas se fazem, por vezes, mais dolorosas. Tais ocorrências, muita vez, obedecem a pura ilusão visual.

A atividade divina jamais cessa e justamente no quadro da luta benéfica é que o discípulo insculpirá a própria vitória.

Não nos cabe, pois, a deserção pela atitude contemplativa e, sim, avançar, confiantemente, para o grande futuro.

Livro Pão Nosso – Espírito Emmanuel – Médium Francisco Cândido Xavier. 

domingo, 6 de dezembro de 2020

A NOVA ERA

Um Espírito Israelita - Mulhouse, 1861

9. Deus é único. Moisés é o Espírito que Deus enviou em missão para torná-lo conhecido, não somente dos hebreus, mas também dos povos pagãos. Deus serviu-se do povo hebreu para se revelar aos homens, por Moisés e os profetas. As contrariedades e o sofrimento da vida por que passavam os hebreus destinavam-se a impressionar as nações e fazer cair o véu que encobria as coisas divinas aos homens.

Os mandamentos de Deus, revelados por Moisés, contêm o gérmen da mais ampla moral cristã. Os comentários da Bíblia restringiam-lhe o sentido, pois, colocados em prática em toda a sua pureza, não seriam então compreendidos. Mas os dez mandamentos de Deus nem por isso deixaram de ser o brilhante frontispício da obra, como um farol que deveria iluminar a Humanidade, no caminho a percorrer.

A moral, isto é, o conjunto de regras de conduta, os costumes, bem como os princípios espirituais ensinados por Moisés, eram apropriados ao estado de adiantamento em que se encontravam os povos chamados à regeneração. Esses povos, semisselvagens quanto ao aperfeiçoamento de sua alma, não compreendiam que podiam adorar a Deus, a não ser por sacrifícios sangrentos, e, muito menos, que fosse preciso perdoar aos inimigos. Sua inteligência era notável sob o ponto de vista material, das artes e das ciências, porém, era muito atrasada em moralidade, e não entenderiam uma religião que fosse inteiramente espiritual. Era-lhes preciso uma representação semi-material, como a que lhes oferecia a religião hebraica. Assim, enquanto os sacrifícios falavam aos seus sentidos, a ideia de Deus lhes falava ao Espírito. O Cristo foi o iniciador da moral mais pura, mais sublime: a moral evangélico-cristã, que deve renovar o mundo, aproximar os homens e torná-los irmãos; que deve fazer brotar de todos os corações humanos a caridade e o amor ao próximo e criar, entre todos os homens, uma solidariedade comum; de uma moral perfeita, que deve transformar a Terra e fazer dela a morada para Espíritos moralmente superiores aos de hoje. É a lei do progresso, à qual a Natureza está submetida, que se cumpre, e o Espiritismo é a alavanca da qual Deus se serve para fazer avançar a Humanidade.

São chegados os tempos em que as ideias morais devem se desenvolver para que se realize o progresso que está na vontade de Deus. Elas devem seguir o mesmo caminho que as ideias de liberdade percorreram, como suas antecessoras. Não se pense, entretanto, que este desenvolvimento acontecerá sem lutas. Não, pois, para chegar à maturidade elas precisam de abalos e de discussões, a fim de atrair a atenção das massas. Uma vez despertada a atenção, a beleza e a santidade da moral impressionarão os espíritos, que então se dedicarão a uma ciência que lhes dará a chave da vida futura e lhes abrirá as portas da felicidade eterna. Moisés começou, Jesus continuou, o Espiritismo concretizará a obra.

Fénelon - Poitiers, 1861

10. Um dia, Deus, em sua caridade inesgotável, permitiu ao homem ver a verdade varar as trevas. Este dia foi a chegada do Cristo.

Depois da luz viva as trevas voltaram. O mundo, entre alternativas do conhecimento da verdade e obscuridade da ignorância, perdeu-se novamente. Então, tal como os profetas do Antigo Testamento, os Espíritos se puseram a falar e a vos advertir: O mundo está abalado em suas bases, o trovão provocará estrondo. Sede firmes!

O Espiritismo é de ordem divina, visto que repousa nas próprias leis da Natureza, e acreditai que tudo o que é de origem divina tem um objetivo grande e útil. Vosso mundo se perdia. A Ciência, desenvolvendo-se, à custa dos valores de ordem moral, estava vos conduzindo ao bem-estar material em proveito do Espírito das trevas. Vós o sabeis, cristãos: o coração e o amor devem andar unidos à Ciência. O reino do Cristo, infelizmente, após dezoito séculos, e apesar do sangue de tantos mártires, ainda não chegou. Cristãos, voltai ao Mestre que vos quer salvar. Tudo é fácil para aquele que crê e ama. O amor o enche de uma alegria indescritível. Sim, meus filhos, o mundo está abalado; os bons Espíritos vos dizem sempre; curvai-vos sob o sopro que anuncia a tempestade a fim de não serdes derrubados, isto é, preparai-vos e não vos assemelheis às virgens loucas, que foram apanhadas desprevenidas à chegada do esposo.

A revolução que se prepara é mais moral do que material; os Espíritos, mensageiros do Senhor, inspiram a fé para que todos vós, companheiros da Doutrina, iluminados e ardentes, façais ouvir a vossa voz humilde. Sois o grão de areia, mas, sem grãos de areia, não haveria montanhas, portanto, que estas palavras: “Somos pequenos”, não tenham mais sentido para vós. Cada um tem sua missão, cada um tem seu trabalho. A formiga não constrói seu formigueiro, e os animaizinhos insignificantes não erguem continentes? A nova cruzada começou: apóstolos da paz universal e não da guerra, São Bernardos modernos, olhai e andai para a frente! A lei dos mundos é a lei do progresso.

NO CAMPO SOCIAL 

“Ele respondeu e disse-lhes: – Dai-lhes vós de comer...”

(Marcos, 6:37.)

Diante da multidão fatigada e faminta, Jesus recomenda aos apóstolos: – “Dai-lhes vós de comer.”

A observação do Mestre é importante, quando realmente poderia ele induzi-los a recriminar a multidão pela imprudência de uma jornada exaustiva até o monte, sem a garantia do farnel.

O Mestre desejou, porém, gravar no espírito dos aprendizes a consagração deles ao serviço popular. Ensinou que aos cooperadores do Evangelho, perante a turba necessitada, compete tão somente um dever – o da prestação de auxílio desinteressado e fraternal.

Naquela hora do ensinamento inesquecível, a fome era naturalmente do corpo, vencido de cansaço, mas, ainda e sempre, vemos a multidão carecente de amparo, dominada pela fome de luz e de harmonia, vergastada pelos invisíveis azorragues da discórdia e da incompreensão.

Os colaboradores de Jesus são chamados, não a obscurecê-la com o pessimismo, não a perturbá-la com a indisciplina ou a imobilizá-la com o desânimo, mas sim a nutri-la de esclarecimento e paz, fortaleza moral e sublime esperança.

Se te encontras diante do povo, com o anseio de ajudá-lo, se te propões contribuir na regeneração do campo social, não te percas em pregações de rebelião e desespero. Conserva a serenidade e alimenta o próximo com o teu bom exemplo e com a tua boa palavra.

Não olvides a recomendação do Senhor: – “Dai-lhes vós de comer.” 

Livro Fonte Viva – Espírito Emmanuel – Médium Francisco Cândido Xavier.