domingo, 8 de dezembro de 2019
domingo, 24 de novembro de 2019
OS SUPERIORES E OS INFERIORES
François, Nicolas, Madeleine, Cardeal Morlot - Paris, 1863
9. A autoridade, assim como a riqueza, é uma delegação da qual terá
que prestar contas aquele que dela estiver investido. Não acrediteis que ela
seja dada para satisfazer o vão prazer de mandar, nem tampouco, conforme
acredita falsamente a maior parte dos poderosos da Terra, como um direito ou
uma propriedade.
Deus tem lhes provado constantemente
que não é nem uma coisa nem outra, pois as retira deles quando quer. Se fosse
um privilégio ligado à pessoa, seria intransferível. Ninguém pode dizer que uma
coisa lhe pertence, quando ela pode lhe ser tirada sem o seu consentimento.
Deus concede a autoridade a título de missão
ou de prova, quando quer, e a retira do mesmo modo.
Todo aquele que é depositário da
autoridade, seja qual for em grau de importância, desde um senhor para com seu
servidor até o soberano para com seu povo, não deve esquecer-se de que é um encarregado
de almas e responderá pela boa ou a má orientação que der a seus subordinados.
Vai arcar com as culpas das faltas que estes poderão cometer, dos vícios aos
quais serão arrastados em consequência dessa orientação ou dos maus exemplos
recebidos; mas, também, colherá os frutos do seu esforço por conduzi-los ao
bem. Todo homem tem, na Terra, uma missão pequena ou grande; seja qual for,
sempre lhe é dada para o bem; desviá-la do seu verdadeiro sentido é fracassar
no seu cumprimento.
Se Deus pergunta ao rico: Que fizeste da riqueza
que deveria ser nas tuas mãos uma fonte espalhando fecundidade ao seu redor?
Também perguntará àquele que dispõe de alguma
autoridade: Que uso fizeste dessa autoridade? Que mal impediste? Que progresso promoveste?
Se te dei subordinados, não foi para fazer deles escravos de tua vontade, nem
instrumentos dóceis dos teus caprichos ou de tua ambição; te fiz forte e te
confiei os fracos para que, amparando-os, os ajudasses a subir até mim.
Aquele que, investido de autoridade, segue as
palavras do Cristo não despreza nenhum dos que estão abaixo dele, porque sabe
que as diferenças sociais não existem perante Deus. O Espiritismo lhe ensina que,
se hoje eles lhe obedecem, já puderam tê-lo comandado, ou poderão vir a
comandá-lo mais tarde e, então, será tratado como os tratou.
Se o superior tem deveres a cumprir, o subordinado
também os tem por sua vez e não menos sagrados. Se este último é espírita, sua consciência
lhe dirá, melhor ainda, que não está dispensado de os cumprir, mesmo que seu
chefe não cumpra os que lhe competem, pois sabe que não se deve pagar o mal com
o mal, e que as faltas de um não justificam as faltas de outros. Se sofre na
sua condição de subalterno, sabe que é merecido, porque ele mesmo pode já ter
também abusado da autoridade que tinha, e agora deve sentir, por sua vez, os
inconvenientes daquilo que fez os outros sofrerem. Se é obrigado a suportar
essa situação, na falta de encontrar outra melhor, o Espiritismo lhe ensina a resignar-se
a isso, como uma prova para sua humildade, necessária a seu adiantamento. Sua
crença o guia na sua conduta; ele age como gostaria que seus subordinados
agissem para com ele, se fosse o chefe.
Por isso mesmo, é mais cuidadoso no cumprimento de
suas obrigações, pois compreende que toda negligência no trabalho que lhe é
confiado é um prejuízo para aquele que o remunera, a quem deve seu tempo e seus
esforços. Em resumo, é guiado pelo sentimento do dever, que lhe advém de sua
fé, e a certeza de que todo desvio do caminho correto é uma dívida que deverá
pagar cedo ou tarde.
EM NOSSO TRABALHO
"Porque toda casa é edificada por alguém,
mas o que edificou todas as
coisas é Deus." - Paulo. (HEBREUS, 3:4.)
O Supremo Senhor criou o Universo, entretanto,
cada criatura organiza o seu mundo particular.
O Arquiteto Divino é o possuidor de todas as
edificações, todavia, cada Espírito constrói a habitação que lhe é própria.
O Doador dos Infinitos Bens espalha valores
ilimitados na Criação, contudo, cada um de nós outros deverá criar valores que
nos sejam inerentes à personalidade.
A natureza maternal, rica de bênçãos, em toda
parte constitui a representação do patrimônio imensurável do Poder Divino e, em
todo lugar, onde exista alguém, aí palpita a vontade igualmente criadora do
homem, que é o herdeiro de Deus.
O Pai levanta fundamentos e estabelece leis.
Os filhos contribuem na construção das obras e
operam interferências.
É compreensível, portanto, que empenhemos todo o
cuidado em nosso esforço individualista, nas edificações do mundo, convictos de
que responderemos pela nossa atuação pessoal, em todos os quadros da vida.
Colaboremos no bem com o entusiasmo de quem
reconhece a utilidade da própria ação, nos círculos do serviço, mas sem paixões
destruidoras que nos amarrem às ilhas do isolacionismo.
Apresentemos nosso trabalho ao Senhor,
diariamente, e peçamos a Ele destrua as particularidades em desacordo com os
seus propósitos soberanos e justos, rogando-Lhe visão e entendimento.
Seremos compelidos a formar o campo mental de nós
mesmos, a erguer a casa de nossa elevação e a construir o santuário que nos
seja próprio.
No desdobramento desse serviço, porém, jamais nos
esqueçamos de que todos os patrimônios da vida pertencem a Deus.
Livro Vinha de Luz – Emmanuel – Chico Xavier.
A VIRTUDE
François, Nicolas, Madeleine, Cardeal Morlot - Paris, 1863
8. A virtude, no seu mais alto grau, é o conjunto de todas as
qualidades essenciais que constituem o homem de bem. Ser bom, caridoso, laborioso,
sóbrio, modesto, são qualidades do homem virtuoso. Infelizmente são
acompanhadas quase sempre de pequenas falhas morais que as desmerecem e as
enfraquecem. Aquele que faz alarde de sua virtude não é virtuoso, pois lhe
falta a principal qualidade: a modéstia. E tem o vício mais oposto: o orgulho.
A virtude realmente digna desse nome não gosta de se exibir; ela é sentida, mas
se esconde no anonimato e foge da admiração das multidões. São Vicente de Paulo
era virtuoso; o digno Cura de Ars era virtuoso, e muitos outros não muito conhecidos
do mundo, mas conhecidos de Deus. Todos esses homens de bem ignoravam que eram
virtuosos; deixavam-se ir pela corrente de suas santas inspirações e praticavam
o bem com total desinteresse e completo esquecimento de si mesmos.
À virtude, assim compreendida e
praticada, é que eu vos convido, meus filhos; a essa virtude verdadeiramente
cristã e verdadeiramente espírita que eu vos convido a consagrar-vos. Afastai
de vossos corações o sentimento do orgulho, da vaidade, do amor-próprio, que sempre
desvalorizam as mais belas qualidades. Não imiteis o homem que se coloca como um modelo e se gaba de suas próprias qualidades para
todos os ouvidos tolerantes. Essa virtude com ostentação esconde, muitas vezes, uma multidão de pequenas
mesquinharias e odiosas fraquezas.
Em princípio, o homem que exalta a si mesmo, que
ergue uma estátua à sua própria virtude, aniquila, por essa única razão, todo
mérito efetivo que possa ter. Mas o que direi daquele que dá valor em parecer aquilo
que não é? Compreendo muito bem que o homem que faz o bem sinta no fundo do
coração uma satisfação íntima, mas, uma vez que essa satisfação se exteriorize
para provocar elogios, degenera em amor-próprio.
Vós todos, a quem a fé espírita reanimou com seus
raios, e que sabeis o quanto o homem está longe da perfeição, não façais nunca uma
tolice dessas. A virtude é uma graça que eu desejo a todos os espíritas
sinceros, mas advirto: Mais vale poucas virtudes com modéstia do que muitas com
orgulho. Foi pelo orgulho que as humanidades se perderam sucessivamente, e será
pela humildade que deverão um dia redimir-se.
JESUS E HUMILDADE
Reunião pública de 9/3/59
Questão nº 937
Estudando a humildade, vejamos como se comportava
Jesus no exercício da sublime virtude.
Decerto, no tempo em que ao mundo deveria surgir a
mensagem da Boa-Nova, poderia permanecer na glória celeste e fazer-se
representar entre os homens pela pessoa de mensageiros angélicos, mas preferiu
descer, Ele mesmo, ao chão da Terra, e experimentar-lhe as vicissitudes.
Indubitavelmente, contava com poder bastante para
anular a sentença de Herodes que mandava decepar a cabeça dos recém-natos de
sua condição, com o fim de impedir-lhe a presença; entretanto, afastou-se
prudentemente para longínquo rincão, até que a descabida exigência fosse
necessariamente proscrita.
Dispunha de vastos recursos para se impor em
Jerusalém, ao pé dos doutores que lhe negavam autoridade no ensino das novas
revelações; contudo, retirou-se sem mágoa em demanda de remota província, a
valer-se dos homens rudes que lhe acolhiam a palavra consoladora.
Possuía suficiente virtude para humilhar a filha de
Magdala, dominada pela força das sombras; no entanto, silenciou a própria
grandeza moral para chama-la docemente ao reajuste da vida.
Atento à própria dignidade, era justo mandasse os
discípulos ao encontro dos sofredores para consolá-los na angústia e sarar-lhes
a ulceração; todavia, não renunciou ao privilégio de seguir, Ele mesmo, em cada
canto de estrada, a fim de ofertar-lhes alívio e esperança, fortaleza e
renovação.
Certo, detinha elementos para desfazer-se de Judas,
o aprendiz insensato; porém, apesar de tudo, conservou-o até o último dia da
luta, entre aqueles que mais amava.
Com uma simples palavra, poderia confundir os
juizes que o rebaixavam perante Barrabás, autor de crimes confessos; contudo,
abraçou a cruz da morte, rogando perdão para os próprios carrascos.
Por fim, poderia condenar Saulo de Tarso, o
implacável perseguidor, a penas soezes, pela intransigência perversa com que
aniquilava a plantação do Evangelho nascente; mas buscou-o, em pessoa, às
portas de Damasco, visitando-lhe o coração, por sabê-lo enganado na direção em
que se movia.
Com Jesus, percebemos que a humildade nem sempre
surge da pobreza ou da enfermidade que tanta vez somente significam lições
regeneradoras, e sim que o talento celeste é atitude da alma que olvida a
própria luz para levantar os que se arrastam nas trevas e que procura
sacrificar a si própria, nos carreiros empedrados do Mundo, para que os outros
aprendam, sem constrangimento ou barulho, a encontrar o caminho para as bênçãos
do Céu.
Livro Religião dos Espíritos – Emmanuel – Chico Xavier.
domingo, 17 de novembro de 2019
O DEVER
Lázaro
– Paris,1863.
7. O dever é a obrigação moral, primeiro para consigo mesmo e, em
seguida, para com os outros. O dever é a lei da vida: encontra-se desde os
menores detalhes, assim como nos mais elevados atos. Refiro-me apenas ao dever
moral e não ao dever que as profissões impõem.
Na ordem dos sentimentos o dever é
muito difícil de ser cumprido, pois se encontra em antagonismo com as seduções
do interesse e do coração. Suas vitórias não têm testemunhos e suas derrotas
não estão sujeitas à repressão. O dever íntimo do homem é governado pelo seu
livre-arbítrio, este aguilhão(estimulante, provocador) da consciência, guardião
da integridade interior, o adverte e o sustenta, mas permanece, muitas vezes,
impotente perante os enganos da paixão. O dever do coração, fielmente
observado, eleva o homem, mas, como este dever pode ser determinado? Onde ele
começa? Onde termina? O dever começa precisamente no ponto onde ameaçais a
felicidade ou a tranquilidade de vosso próximo, e termina no limite em que não
desejaríeis vê-lo transposto em relação a vós mesmos.
Deus criou todos os homens iguais
perante a dor; pequenos ou grandes, incultos ou esclarecidos, sofrem todos
pelas mesmas causas, a fim de que cada um avalie com sensatez o mal que pôde
fazer. O critério para o bem, infinitamente mais variado em suas expressões, não
é o mesmo. A igualdade perante a dor é uma sublime providência de Deus, que
quer que seus filhos, instruídos pela experiência comum, não cometam o mal,
alegando a ignorância de seus efeitos.
O dever reflete, na prática, todas as
virtudes morais; é uma fortaleza da alma que enfrenta as angústias da luta; é
severo e dócil; pronto para dobrar-se às diversas complicações, mas permanece inflexível
perante suas tentações. O homem que cumpre seu dever ama mais a Deus do que
às criaturas, e às criaturas mais do que a si mesmo. É, ao mesmo tempo,
juiz e escravo em sua própria causa.
O dever é o mais belo laurel(prêmio,
distintivo) da razão; provém dela, como um filho nasce de sua mãe. O homem deve
amar o dever, não porque o preserve dos males da vida, aos quais a Humanidade
não pode subtrair-se, mas sim por dar à alma o vigor necessário ao seu desenvolvimento.
O dever cresce e se irradia, sob forma
mais elevada, em cada uma das etapas superiores da Humanidade; a obrigação
moral da criatura para com Deus nunca cessa; ela deve refletir as virtudes do Eterno,
que não aceita um esboço imperfeito, pois quer que a beleza de sua obra
resplandeça perante Ele.
FELICIDADE
E DEVER
Reunião pública de 13/7/59
Questão nº 922
A procura da felicidade assemelha-se, no fundo, a
uma caçada difícil.
Taxando-a por dom facilmente apresável, há quem a
procure entre os mitos do ouro, enferrujando as mais belas faculdades dá alma,
na fossa da usura; quem a dispute no prazer dos sentidos, acordando no catre da
enfermidade; quem lhe suponha a presença na exaltação do poder terrestre,
acolhendo-se à dor de extrema desilusão, e quem a busque na retenção do
supérfluo, apodrecendo de tédio, em câmaras de preguiça.
Não há felicidade, contudo, sem dever corretamente
cumprido.
Observa, pois, o dever de que a vida te incumbe.
Vê-lo-ás, hora a hora, no quadro das
circunstâncias.
Na fé que te pede serviço.
No serviço que te roga compreensão.
No ideal que te pede caráter.
No caráter que te roga firmeza.
No exemplo que te pede disciplina.
Na disciplina que te roga humildade.
No lar que te pede renúncia.
Na renúncia que te roga perseverança.
No caminho que te pede cooperação.
Na cooperação que te roga discernimento.
Por mais agressivos se façam os empeços da marcha,
não te desvies da obrigação que te recomenda o bem de todos, sempre que puderes
e quanto puderes, seja onde for.
Porque te mostres leal a ti mesmo, é possível que a
maioria te categorize à conta de ingrato e rebelde, fanático e louco.
A maioria, no entanto, nem sempre abraça o direito.
Não podemos esquecer que, no instante supremo da
Humanidade, ela, a maioria, estava com Barrabás e contra o Cristo.
Cumpre, assim, teu dever, e, tomando da Terra
somente o necessário à própria manutenção, de modo a que te não apropries da
felicidade dos outros, estarás atingindo a verdadeira felicidade, que fulge
sempre, como bênção de Deus, na consciência tranquila.
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
PARÁBOLA DO SEMEADOR
5. Nesse mesmo dia, Jesus, ao sair de casa, sentou-se
à beira do mar; reuniu-se ao seu redor uma grande multidão de pessoas; foi por isso
que subiu numa barca e todo o povo ficou em pé na margem; e Ele lhes disse,
então, muitas coisas em parábolas:
Saiu aquele que semeia a semear; e enquanto
semeava, caiu ao longo do caminho um pouco de semente, e os pássaros do céu
vieram e comeram-na.
Uma outra quantidade caiu nas pedras, onde não
havia muita terra; e logo germinou, pois a terra onde estava não era muito
profunda. Mas queimou-se com o sol, pois tinha acabado de nascer; e, como não
tinha raízes, secou.
Outra igualmente caiu nos espinhos, e os espinhos
cresceram e afogaram-na.
Uma outra, enfim, caiu na boa terra que dava
frutos, havendo grãos que rendiam cem por um, outros sessenta e outros trinta.
Que ouça aquele que tem ouvidos para ouvir.
(Mateus, 13:1 a 9)
Escutai, pois, vós outros, a parábola do semeador.
Todo aquele que ouve a palavra do reino e não
presta a menor atenção, surge o Espírito mau e arrebata o que se havia semeado
em seu coração; este é aquele que recebeu a semente ao longo da estrada.
Aquele que recebeu a semente junto às pedras, é o
que ouve a palavra e que a recebe na mesma hora com alegria; mas não tem raízes
em si, e isso dura pouco tempo; e quando lhe sobrevêm tribulações e perseguições
por causa da palavra, logo se escandaliza.
Aquele que recebeu a semente entre os espinhos, é o
que ouve a palavra; mas, em seguida, as solicitudes deste século e a ilusão das
riquezas sufocam nele essa palavra e a tornam infrutífera.
Mas aquele que recebeu a semente em uma boa terra,
é aquele que ouve a palavra, que lhe dá atenção e ela frutifica, e rende cem ou
sessenta, ou trinta por um. (Mateus, 13:18 a 23)
6. A parábola do semeador representa perfeitamente as várias faces
que existem na maneira de se pôr em prática os ensinamentos do Evangelho.
Quantas pessoas há, de fato, para as quais os ensinamentos não passam de letra
morta e, semelhantes às sementes caídas sobre as pedras, nada produzem, nada
frutificam!
A parábola encontra aplicação
igualmente justa nas diferentes categorias de espíritas. Não é o símbolo
daqueles que apenas se apegam aos fenômenos materiais, e deles não tiram
nenhuma consequência?
Que apenas os veem como objeto de
curiosidade? Não simboliza os que procuram o lado brilhante nas comunicações
dos Espíritos, interessando-se somente enquanto lhes satisfazem a imaginação, mas
que, após ouvi-las, continuam frios e indiferentes como antes? Daqueles que
acham os conselhos muito bons e os admiram, aplicados a outrem e não a si
mesmos? E, finalmente, daqueles para quem os ensinamentos são como a semente
que caiu em terra boa e produz frutos?
PENSA UM POUCO
“As obras que eu faço em nome de meu Pai,
essas testificam de mim.” — Jesus.
(JOÃO, CAPÍTULO 10, VERSÍCULO 25.)
É vulgar a preocupação do homem comum,
relativamente às tradições familiares e aos institutos terrestres a que se
prende, nominalmente, exaltando-se nos títulos convencionais que lhe
identificam a personalidade.
Entretanto, na vida verdadeira, criatura alguma
é conhecida por semelhantes processos. Cada Espírito traz consigo a história viva
dos próprios feitos e somente as obras efetuadas dão a conhecer o valor ou o
demérito de cada um.
Com o enunciado, não desejamos afirmar que a
palavra esteja desprovida de suas vantagens indiscutíveis; todavia, é
necessário compreender-se que o verbo é também profundo potencial recebido da
Infinita Bondade, como recurso divino, tornando-se indispensável saber o que
estamos realizando com esse dom do Senhor Eterno.
A afirmativa de Jesus, nesse particular,
reveste-se de imperecível beleza.
Que diríamos de um Salvador que estatuísse
regras para a Humanidade, sem partilhar-lhe as dificuldades e impedimentos?
O Cristo iniciou a missão divina entre homens
do campo, viveu entre doutores irritados e pecadores rebeldes, uniu-se a
doentes e aflitos, comeu o duro pão dos pescadores humildes e terminou a tarefa
santa entre dois ladrões.
Que mais desejas? Se aguardas vida fácil e
situações de evidência no mundo, lembra-te do Mestre e pensa um pouco.
Livro Pão Nosso – Emmanuel – Chico Xavier.
domingo, 3 de novembro de 2019
OS BONS ESPÍRITAS
4. O Espiritismo bem compreendido e bem sentido leva o homem naturalmente
às qualidades mencionadas, que caracterizam o verdadeiro espírita, o verdadeiro
cristão, pois um e outro são a mesma coisa.
O Espiritismo não estabelece nenhuma
nova ordem moral, mas facilita aos homens a compreensão e a prática da moral do
Cristo, dando a fé inabalável e esclarecida àqueles que duvidam ou vacilam.
Muitos daqueles que acreditam nos fatos
das manifestações espíritas não compreendem nem suas consequências, nem seu
alcance moral, ou, se os compreendem, não os aplicam a si mesmos. Por que isso
acontece? Será falta de clareza da Doutrina? Não. A Doutrina Espírita não contém nem alegorias, nem figuras que possam dar lugar a
falsas interpretações. A clareza é sua própria essência, e é de onde vem a sua
força, pois vai diretamente à inteligência. Ela não tem nada de misteriosa, e
seus seguidores não estão de posse de nenhum segredo oculto ao povo.
É preciso, então, para compreendê-la, uma
inteligência fora do comum? Não. Há homens de uma reconhecida capacidade que
não a compreendem, enquanto inteligências simples, até mesmo jovens, mal saídos
da adolescência, apreendem-na com uma admirável exatidão, nos seus mais delicados
detalhes. Isso acontece porque a parte por assim dizer material da
Ciência não requer mais do que olhos para ser observada. Enquanto a parte essencial
do Espiritismo exige um certo grau de sensibilidade, que independe da idade
ou do grau de instrução da criatura, ao qual podemos chamar de maturidade do
senso moral, essa maturidade lhe é própria porque, de certa forma,
corresponde ao grau de desenvolvimento que o Espírito encarnado já possui.
Os laços da matéria, em alguns, estão ainda muito
fortes para permitir ao Espírito libertar-se das coisas da Terra; o nevoeiro
que o envolve impede-lhe a visão do infinito. Eis porque ele não rompe facilmente
nem com seus gostos, nem com seus hábitos, não percebendo que possa haver
qualquer coisa de melhor do que aquilo que possui. A crença nos Espíritos é,
para eles, um simples fato, que modifica muito pouco, ou quase nada, suas
tendências instintivas.
Numa palavra: vêem apenas um raio de luz,
insuficiente para orientá-los e lhes dar uma vontade determinada, capaz de
vencer suas tendências. Eles prendem-se mais aos fenômenos do que à moral, que
lhes parece banal e monótona; pedem aos Espíritos para ter acesso de imediato
aos novos mistérios, sem perguntar a si mesmos se são dignos para penetrar nas
vontades e mistérios do Criador. São espíritas imperfeitos, alguns deles
estacionam no caminho ou se distanciam de seus irmãos em crença, pois recuam diante
da obrigação de se reformarem, ou então reservam suas simpatias para aqueles
que compartilham das suas fraquezas e prevenções. Entretanto, a aceitação dos
princípios da Doutrina Espírita é um primeiro passo que lhes permitirá um
segundo mais fácil numa outra existência.
Aquele que pode, com razão, ser qualificado como
verdadeiro e sincero espírita está num grau superior de adiantamento moral; o Espírito,
já dominando mais completamente a matéria, dá-lhe uma percepção mais clara do
futuro; os princípios da Doutrina Espírita fazem nele vibrar os sentimentos,
que permanecem adormecidos nos outros; em uma palavra, foi tocado no coração
e a sua fé é inabalável. Um é como o músico que se comove com os acordes, enquanto
o outro ouve apenas sons. Reconhece-se o verdadeiro espírita por sua
transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más tendências; enquanto
um se satisfaz em seu horizonte limitado, o outro, que compreende um pouco
mais, esforça-se para se libertar dele e sempre o consegue, quando tem uma
vontade firme.
O OBREIRO DO SENHOR
Cada criatura mora espiritualmente na
seara a que se afeiçoa.
É assim que, se o justo arrecada
prêmios da retidão, o delinquente, em qualquer parte, recolhe os frutos do
crime.
O obreiro do Senhor, por isso mesmo,
onde surja, é conhecido por traços essenciais.
Não cogita do próprio interesse.
Não exige cooperação para fazer o
bem.
Não cria problemas.
Não suspeita mal.
Não cobra tributos de gratidão.
Não arma ciladas.
Não converte o serviço em fardo
insuportável nos ombros do companheiro.
Não transforma a verdade em lâmina de
fogo no peito dos semelhantes.
Não reclama santidade nos outros,
para ser útil.
Não fiscaliza o vintém que dá.
Não espia os erros do próximo.
Não promove o exame das consciências
alheias.
Não se cansa de auxiliar.
Não faz greve por notar-se
desatendido.
Não desconhece as suas fraquezas.
Não cultiva espinheiros de intolerância.
Não faz coleção de queixas.
Não perde tempo em lutas desnecessárias.
Não tem a boca untada com veneno.
Não sente cóleras sagradas.
Não ergue monumentos ao derrotismo.
Não se impacienta.
Não se exibe.
Não acusa.
Não critica.
Não se ensoberbece.
Entretanto, frequentemente aparece na Seara
Divina quem condene os outros e iluda a si mesmo, supondo-se na posse de
imaginária dominação.
O obreiro do Senhor, todavia, encarnado ou
desencarnado, em qualquer senda de educação e em qualquer campo religioso,
segue à frente, ajudando e compreendendo, perdoando e servindo, para
cumprir-lhe, em tudo, a sacrossanta Vontade.
Livro Religião dos Espíritos – Emmanuel – Chico Xavier.
domingo, 27 de outubro de 2019
O HOMEM DE BEM
3. O
verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de
caridade, na sua maior pureza. Questiona sua consciência sobre seus próprios
atos, perguntará se não violou essa lei, se não fez o mal, se fez todo o bem que
podia, se negligenciou voluntariamente uma ocasião de ser útil, se ninguém
tem queixa dele, enfim, se fez aos outros tudo o que gostaria que lhe fizessem.
Tem fé em Deus, na sua bondade, na sua
justiça e na sua sabedoria divina. Sabe que nada acontece sem a sua permissão e
submete-se, em todas as coisas, à sua vontade.
Tem fé no futuro; por isso coloca os
bens espirituais acima dos bens temporais.
Sabe que todas as alternativas da vida,
todas as dores, todas as decepções são provas ou expiações, e as aceita sem
lamentações.
O homem de bem que tem o sentimento de
caridade e de amor ao próximo faz o bem pelo bem, sem esperar retorno, retribui
o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte e sempre sacrifica seus
interesses à justiça.
Encontra satisfação nos benefícios que
distribui, nos serviços que presta, nas alegrias que proporciona aos seus
semelhantes, nas lágrimas que seca, nas consolações que leva aos aflitos. Seu
primeiro impulso é o de pensar nos outros antes de si, acudir aos interesses dos
outros antes de procurar os seus. O egoísta, ao contrário, calcula os ganhos e
as perdas de toda ação generosa.
É bom, humano e benevolente para com
todos, sem distinção de raças nem de crenças, pois vê irmãos em todos os
homens.
Respeita nos outros todas as convicções
sinceras e não amaldiçoa quem não pensa como ele.
Em todos os momentos, a caridade é o
seu guia; tendo como certo que aquele que prejudica os outros com palavras
maldosas, que agride os sentimentos de alguém com seu orgulho e seu desdém, que
não recua perante a ideia de causar um sofrimento, uma contrariedade, ainda que
ligeira, quando poderia evitá-la, falta ao dever do amor ao próximo e não
merece a clemência do Senhor.
Não tem nem ódio, nem rancor, nem
desejos de vingança; a exemplo de Jesus perdoa e esquece as ofensas e apenas se
recorda dos benefícios, pois sabe que será perdoado conforme perdoou.
É indulgente para com as fraquezas dos
outros, porque sabe que ele mesmo precisa de indulgência, e se recorda das
palavras do Cristo: Que aquele que estiver sem pecado lhe atire a primeira
pedra.
Não se satisfaz em procurar defeitos
nos outros, nem colocá-los em evidência. Se a necessidade o obriga a fazer
isso, procura sempre o bem que possa atenuar o mal.
Estuda suas próprias imperfeições e
trabalha sem cessar para combatê-las. Emprega todos os seus esforços para poder
dizer no dia seguinte que há nele algo de melhor do que no dia anterior.
Não se exalta a si mesmo nem seus
talentos à custa de outrem, ao contrário, aproveita todas as ocasiões para
ressaltar as qualidades dos outros.
Não se envaidece de sua riqueza, nem de
suas vantagens pessoais, pois sabe que tudo o que lhe foi dado pode ser
retirado.
Usa, sem exagero, dos bens que lhe são
concedidos, pois sabe que se trata de um depósito do qual deverá prestar
contas, e que o emprego, que resultaria mais prejudicial para si mesmo, seria o
de fazê-los servir à satisfação de suas paixões.
Se, na ordem social, alguns homens estão
sob seu mando, dependem dele, trata-os com bondade e benevolência, pois são
seus semelhantes perante Deus; usa da sua autoridade para erguer-lhes o moral,
e não para esmagá-los com seu orgulho; evita tudo o que poderia dificultar-lhes
a posição subalterna.
O subordinado, por sua vez, compreende
os deveres de sua posição e se empenha em cumpri-los conscientemente.
Finalmente, o homem de bem respeita
todos os direitos que as leis da Natureza dão aos seus semelhantes, como gosta
que os seus sejam respeitados.
Esta não é a relação completa de todas
as qualidades que distinguem o homem de bem, mas quem quer que se esforce para
possuí-las está no caminho que conduz a todas as outras.
Oração de São Francisco
Senhor, fazei-me
instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio,
que eu leve o amor;
Onde houver ofensa,
que eu leve o perdão;
Onde houver
discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida,
que eu leve a fé;
Onde houver erro,
que eu leve a verdade;
Onde houver
desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver
tristeza, que eu leve alegria;
Onde houver trevas,
que eu leve a luz.
Ó mestre, fazei que
eu procure mais consolar que ser consolado;
compreender, que
ser compreendido;
amar, que ser
amado.
Pois é dando que se
recebe,
é perdoando que se
é perdoado,
e é morrendo que se
vive
para a Vida Eterna.
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