segunda-feira, 2 de abril de 2018

OS TORMENTOS VOLUNTÁRIOS


23. O homem está incessantemente à procura da felicidade que lhe foge sem parar, pois a felicidade pura não existe na Terra. Entretanto, apesar dos sofrimentos que formam o desfile inevitável desta vida, ele poderia pelo menos desfrutar de uma felicidade relativa se não condicionasse essa felicidade às coisas perecíveis e sujeitas às mesmas contrariedades, ou seja, aos prazeres materiais, ao invés de procurá-la nos prazeres da alma, que são uma antecipação dos prazeres celestes imperecíveis. Ao invés de procurar a paz do coração, única felicidade real aqui na Terra, é ávido por tudo aquilo que pode agitá-lo e perturbá-lo e, coisa curiosa, parece criar propositadamente tormentos que dependia só dele evitar.
Haverá maiores tormentos do que aqueles causados pela inveja e pelo ciúme? Para o invejoso e o ciumento não há repouso: estão sempre excitados pelo desejo, o que eles não têm e os outros possuem causa-lhes insônia. O sucesso de seus rivais lhes dá vertigem; seu único interesse é o de menosprezar os outros, toda a sua alegria está em excitar, nos insensatos como eles, a ira do ciúme de que estão possuídos. Pobres insensatos, de fato, nem sonham que talvez amanhã será preciso deixar todas essas futilidades cuja cobiça envenena suas vidas! Não é para eles que se aplicam estas palavras: Bem-aventurados os aflitos, pois serão consolados, visto que suas preocupações não têm recompensa no Céu.
De quantos tormentos, ao contrário, se poupa aquele que sabe se contentar com o que tem, que vê sem inveja aquilo que não é seu, que não procura parecer mais do que é. Ele está sempre rico, pois, se olha abaixo de si, ao invés de olhar acima, verá sempre pessoas que tem menos. É calmo, pois não cria necessidades ilusórias, e não é a calma, em si mesma, uma felicidade em meio às tempestades da vida? (Fénelon - Lyon, 1860.)

O Evangelho Segundo O Espiritismo – Capítulo V – Item 23.

ANTE O CRISTO LIBERTADOR
"Eu sou a porta." JESUS - JOÃO 10:7
Segundo os léxicos(1), a palavra "porta" designa "uma abertura em parede, ao rés-do-chão ou na base de um pavimento, oferecendo entrada e saída".
Entretanto, simbolicamente, o mundo está repleto de portas enganadoras. Dão entrada sem oferecerem saída.
Algumas delas são avidamente disputadas pelos homens que, afoitos na conquista de posses efêmeras, não se acautelam contra os perigos que representam.
Muitos batem à porta da riqueza amoedada e, depois de acolhidos, acordam encarcerados nos tormentos da usura.
Inúmeros forçam a passagem para a ilusão do poder humano e despertam detidos pelas garras do sofrimento.
Muitíssimos atravessam o portal dos prazeres terrestres e reconhecem-se, de um momento para outro, nas malhas da aflição e da morte.
Muitos varam os umbrais da evidência pública, sequiosos de popularidade e influência, acabando emparedados na masmorra do desespero.
O Cristo, porém, é a porta da Vida Abundante.
Com ele, submetemo-nos aos desígnios do Pai Celestial e, nessa diretriz, aceitamos a existência como aprendizado e serviço, em favor de nosso próprio crescimento para a Imortalidade.
Vê, pois, a que porta recorres na luta cotidiana, porque apenas por intermédio do ensinamento do Cristo alcançarás o caminho da verdadeira libertação.

Livro Fonte Viva – Chico Xavier – Emmanuel.

(1)  Conjunto dos vocábulos de uma língua, dispostos em ordem alfabética e com as respectivas significações.

domingo, 25 de março de 2018

PERDA DAS PESSOAS AMADAS. MORTES PREMATURAS


21. Quando a morte se faz presente nas vossas famílias, levando sem critério os jovens antes dos velhos, dizeis muitas vezes: “Deus não é justo, já que sacrifica aquele que é forte, e com um futuro pela frente, para conservar aqueles que já viveram longos anos cheios de decepções; leva aqueles que são úteis e deixa aqueles que não servem mais para nada; parte o coração de uma mãe, privando-a da inocente criatura que fazia toda a sua alegria”.
Criaturas humanas, é nisto que tendes necessidade de vos elevar acima do plano terreno da vida, para compreender que o bem está muitas vezes onde se acredita ver o mal, a sábia previdência, onde se acredita ver a cega fatalidade do destino! Por que medir a justiça divina pelo valor da vossa? Podeis pensar que o Senhor dos mundos queira, por um simples capricho, vos impor penas cruéis? Nada se faz sem um objetivo inteligente e tudo o que acontece tem sua razão de ser. Se meditásseis melhor o porquê das dores que vos atingem, encontraríeis sempre a razão divina, razão regeneradora, e vossos míseros interesses seriam uma consideração secundária que desprezaríeis ao último plano.
Acreditai em mim, a morte é preferível, mesmo numa encarnação de vinte anos, a essas desordens vergonhosas que desolam famílias honradas, cortam o coração de uma mãe e fazem branquear os cabelos dos pais, antes do tempo. A morte prematura é muitas vezes um grande benefício que Deus dá àquele que se vai, e que se encontra assim poupado das misérias da vida, ou das seduções que poderiam arrastá-lo à sua perdição. Aquele que morre na flor da idade não é vítima da fatalidade; é que Deus julga que não lhe é útil passar maior tempo na Terra.
É uma terrível desgraça, dizeis, que uma vida tão cheia de esperanças seja cortada tão cedo! De quais esperanças quereis falar? Das da Terra, onde aquele que se foi teria brilhado, trilhado seu caminho e feito fortuna? Sempre essa visão estreita, que não consegue se elevar acima da matéria! Acaso sabeis qual teria sido o destino dessa vida tão cheia de esperanças, segundo pensais? Quem vos garante que ela não poderia ter sido cheia de amarguras? Acaso considerais nulas as esperanças da vida futura, preferindo as da vida passageira que arrastais na Terra? Pensais, então, que vale mais ter uma posição entre os homens do que entre os Espíritos bem-aventurados?
Alegrai-vos ao invés de vos lamentar quando Deus quiser retirar um de seus filhos desse vale de misérias. Não há egoísmo em desejar que ele permanecesse aí, para sofrer convosco? Essa dor compreende-se entre aqueles que não têm fé e que veem na morte uma separação eterna; porém vós, espíritas, sabeis que a alma vive melhor livre de seu envoltório corporal. Mães, sabeis que vossos filhos bem-amados estão perto de vós; sim, estão bem perto; seus corpos fluídicos vos rodeiam, seus pensamentos vos protegem, e a lembrança que tendes deles os enche de felicidade; assim como também vossas dores insensatas os perturbam, pois elas denotam uma falta de fé e são uma revolta contra a vontade de Deus.
Vós que entendeis a vida espiritual, fazei vibrar as pulsações de vosso coração em favor desses entes bem-amados, e, se pedirdes a Deus que os abençoe, sentireis em vós aquelas consolações poderosas que secam as lágrimas, aquela fé consoladora que vos mostrará o futuro prometido pelo soberano Senhor. (Sansão, antigo membro da Sociedade Espírita de Paris - Paris, 1863.)

O Evangelho Segundo O Espiritismo – Capítulo V – Item 20.

segunda-feira, 12 de março de 2018

A FELICIDADE NÃO É DESTE MUNDO

20. Não sou feliz! A felicidade não existe para mim! Exclama geralmente o homem, em todas as posições sociais. Isso, meus queridos filhos, prova melhor do que todos os raciocínios possíveis a verdade deste ensinamento do Eclesiastes*: “A felicidade não é deste mundo”. De fato, nem a fortuna, nem o poder, nem mesmo a juventude em flor são condições suficientes para a felicidade. Digo-vos mais: nem mesmo juntas essas três condições tão desejadas o são, uma vez que se escutam constantemente, no meio das classes mais privilegiadas, pessoas de todas as idades lamentarem-se amargamente da condição de suas existências.
Por isso, é difícil entender como é que as classes trabalhadoras e ativas invejem com tanta cobiça a posição daqueles que a fortuna parece ter favorecido. Aqui na Terra, qualquer que seja a posição da criatura, cada um tem a sua parte de trabalho e de miséria, sua quota de sofrimentos e de decepções. Devido a isso, é fácil chegar à conclusão de que a Terra é um lugar de provas e de expiações.
Sendo assim, aqueles que pregam que a Terra é a única morada do homem, que somente nela e numa única existência, lhes é permitida alcançar o mais alto grau da felicidade que a vida lhes possa proporcionar, iludem-se, e enganam aqueles que os escutam. Está demonstrado, pela experiência dos séculos, que este globo, só em raríssimas ocasiões, oferece as condições necessárias à felicidade completa do indivíduo.
No sentido geral, pode-se afirmar que a felicidade é uma utopia, uma ilusão, na busca da qual, gerações se lança sucessivamente, sem poder jamais alcançá-la, pois, se o homem sábio é uma raridade na Terra, o homem totalmente feliz não se encontra nunca.
Aquilo em que consiste a felicidade na Terra é algo de tal modo passageiro para quem não é guiado pela sabedoria que, por um ano, um mês, uma semana de completa satisfação, todo o resto da vida se esgota numa sucessão de amarguras e decepções. Notai meus queridos filhos, que falo aqui dos felizes da Terra, dos que são invejados pelas multidões.
Consequentemente, se a morada terrena é destinada às provas e expiações, é lógico se admitir que em outros lugares existem moradas mais favorecidas, onde o Espírito do homem, mesmo ainda aprisionado num corpo material, possui em toda plenitude os prazeres ligados à vida humana. Foi por isso que Deus semeou em vossos sistemas planetários esses belos planetas superiores, para os quais vossos esforços e vossas tendências vos levarão um dia, quando estiverdes suficientemente purificados e aperfeiçoados.
Contudo, não se deduza das minhas palavras que a Terra esteja destinada para sempre a ser uma penitenciária; certamente que não! Dos progressos já realizados podeis facilmente deduzir os progressos futuros, e dos melhoramentos sociais já conquistados, novos e mais ricos melhoramentos surgirão. Esta é a grandiosa tarefa que deve realizar a nova doutrina que os Espíritos revelaram.
Assim sendo, meus queridos filhos, que um santo estímulo vos anime e que cada um dentre vós se liberte energicamente do homem velho. Consagrai-vos à divulgação do Espiritismo, que já começou a vossa própria regeneração. Cumpre-vos o dever de fazer vossos irmãos participarem dos raios dessa luz sagrada. Mãos à obra, meus queridos filhos! Que nesta reunião solene todos os vossos corações se elevem a esse grandioso objetivo de preparar, para as gerações futuras, um mundo onde a felicidade não será mais uma palavra sem valor. (François Nicolas - Madeleine - Cardeal Morlot, Paris, 1863)

O Evangelho Segundo O Espiritismo – Capítulo V – Item 20.

domingo, 4 de março de 2018

O MAL E O REMÉDIO


19. Será a vossa Terra um lugar de alegria, um paraíso de delícias? A voz do profeta não ressoa mais aos vossos ouvidos? Não vos avisou que haveria pranto e ranger de dentes para aqueles que nascessem neste vale de dores? Vós que viestes viver aqui, esperai lágrimas sofridas e amarguras, e, quanto mais vossas dores forem agudas e profundas, olhai o Céu e bendizei ao Senhor por ter querido vos experimentar!... Homens! Será que apenas reconhecereis o poder de vosso Mestre quando tiver curado as chagas de vosso corpo e coroado vossos dias de bem-aventurança e alegria? Será que apenas reconhecereis seu amor quando tiver enfeitado o vosso corpo com todas as glórias e lhe tiver devolvido o brilho e a brancura? Imitai aquele que vos foi dado como exemplo; chegado ao último degrau do desprezo e da miséria, estendido no monte de lixo, disse a Deus: “Senhor! Conheci todas as alegrias da riqueza e me reduzistes à miséria mais profunda; obrigado, obrigado, meu Deus, por quererdes experimentar bem este vosso servidor!” Até quando vossos olhares se fixarão nos horizontes cujo limite é a morte? Quando vossa alma irá querer enfim se lançar além dos limites do túmulo? Mas, mesmo se devêsseis chorar e sofrer toda uma vida, o que representaria isso comparado à eterna glória reservada àquele que tiver suportado a prova com fé, amor e resignação? Compreendei agora que as vossas desventuras são as consequências dos vossos males no passado e elas terão consolação no futuro que Deus vos prepara. Vós que mais sofreis, considerai-vos os bem-aventurados da Terra.
No estado de desencarnados, quando estáveis no Espaço, escolhestes vossa prova, pois acreditastes ser suficientemente fortes para suportá-la; por que lamentar agora? Vós que pedistes a fortuna e a glória, era para enfrentar a luta da tentação e vencê-la. Vós que pedistes para lutar de corpo e alma contra o mal moral e físico, sabíeis que quanto mais difícil fosse a prova, mais a vitória seria gloriosa e que, se saísseis triunfantes, mesmo que o vosso corpo fosse jogado num monte de lixo, quando de sua morte, deixaria escapar uma alma brilhante, alva, purificada pela expiação e pelo sofrimento.
Que remédio receitar aos que são atacados por obsessões cruéis e males dolorosos? Um só é infalível: a fé, o apelo ao Céu. Se, no extremo dos vossos mais cruéis sofrimentos, vossa voz canta ao Senhor, o anjo à vossa cabeceira, com sua mão, vos mostrará o sinal da salvação e o lugar que vós devereis ocupar um dia. A fé é o remédio certo para o sofrimento; ela sempre mostra os horizontes do infinito diante dos quais se apagam os poucos dias sombrios do presente. Não pergunteis qual remédio é preciso empregar para curar tal úlcera ou tal chaga, tal tentação ou tal prova. Lembrai-vos de que aquele que crê é forte pela certeza da fé e que aquele que duvida um segundo de sua eficiência é punido na hora, pois experimenta no mesmo instante as angústias dolorosas da aflição.
O Senhor marcou com seu selo todos aqueles que creem n’Ele. Cristo vos disse que com a fé removem-se montanhas. Eu vos digo que aquele que sofre e que tem a fé como base será colocado sob sua proteção e não sofrerá mais. Os momentos de maior dor serão para ele as primeiras notas da alegria da eternidade. Sua alma se desprenderá de tal modo do seu corpo que, enquanto este estiver morrendo, ela planará nas regiões celestes, cantando com os anjos os hinos de reconhecimento e de glória ao Senhor.
Felizes os que sofrem e os que choram! Que suas almas se alegrem, pois serão abençoadas por Deus. (Santo Agostinho - Paris, 1863)

O Evangelho Segundo O Espiritismo – Capítulo V – Item 19.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

BEM E MAL SOFRER

18. Quando Cristo disse: Bem-aventurados os aflitos, pois deles é o reino dos Céus, não se referia àqueles que sofrem em geral, pois todos os que estão na Terra sofrem, estejam ou num trono, ou na extrema miséria. Mas poucos sabem sofrer, poucos compreendem que somente as provas bem suportadas podem conduzir o homem ao reino de Deus. O desânimo é uma falta. Deus vos recusa consolações se vos falta coragem. A prece é a sustentação para a alma, mas não é suficiente: é preciso que se apoie sobre uma fé viva na bondade de Deus. Jesus vos disse muitas vezes que não se colocava um fardo pesado sobre ombros fracos, e sim que o fardo é proporcional às forças, como a recompensa será proporcional à resignação e à coragem. A recompensa será tão mais generosa quanto mais difícil tiver sido a aflição. Mas é preciso merecer a recompensa e é por isso que a vida está cheia de tribulações.
O militar que não é enviado à frente de batalha não fica feliz, pois o descanso no acampamento não lhe proporciona promoção. Sede como o militar e não desejeis um descanso que enfraqueceria vosso corpo e entorpeceria vossa alma. Ficai satisfeitos quando Deus vos envia à luta. Essa luta não é o fogo da batalha, mas as amarguras da vida, em que algumas vezes é preciso mais coragem do que num combate sangrento, pois aquele que se manteria firme diante do inimigo poderá fracassar sob a pressão de um sofrimento moral. O homem não tem recompensa por esse tipo de coragem, mas Deus lhe reserva coroas e um lugar glorioso. Quando vos atinge um motivo de dor ou de contrariedade, esforçai-vos para superar isso, e quando chegardes a dominar os ataques da impaciência, da raiva ou do desespero, podeis dizer com uma justa satisfação: “Fui o mais forte”.
Bem-aventurados os aflitos pode traduzir-se assim: Bem-aventurados aqueles que têm a ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão cem vezes a alegria que lhes falta na Terra, e depois do trabalho virá o descanso. (Instruções dos Espíritos – Lacordaire – Havre,1863)


O Evangelho Segundo O Espiritismo – Capítulo V – Item 18.

MELHOR SOFRER NO BEM
“Porque melhor é que padeçais fazendo bem (se a vontade de Deus assim o quer), do que fazendo mal.” — Pedro. (1ª Epístola a Pedro, Capítulo 3, Versículo 17.)

Para amealhar recursos financeiros que será compelido a abandonar precipitadamente, o homem muitas vezes adquire deploráveis enfermidades, que lhe corroem os centros de força, trazendo a morte indesejável.
Comprando sensações efêmeras para o corpo de carne, comumente recebe perigosos males que o acompanham até aos últimos dias do veículo em que se movimenta na Terra.
Encolerizando-se por insignificantes lições do caminho, envenena órgãos vitais, criando fatais desequilíbrios à vida física.
Recheando o estômago, em certas ocasiões, estabelece a viciação de aparelhos importantes da instrumentalidade fisiológica, renunciando à perfeição do vaso carnal pelo simples prazer da gula.
Por que temer os percalços da senda clara do amor e da sabedoria, se o trilho escuro do ódio e da ignorância permanece repleto de forças vingadoras e perturbantes?
Como recear o cansaço e o esgotamento, as complicações e incompreensões, os conflitos e os desgostos, decorrentes da abençoada luta pela suprema vitória do bem, se o combate pelo triunfo provisório do mal conduz os batalhadores a tributos aflitivos de sofrimento?
Gastemos nossas melhores possibilidades a serviço do Cristo, empenhando-lhe nossas vidas.
A arma criminosa que se quebra e a medida repugnante consumada provocam sempre maldição e sombra, mas para o servo dilacerado no dever e para a lâmpada que se apaga no serviço iluminativo reserva-se destino diferente.


Pão Nosso – Chico Xavier – Espírito Emmanuel.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

O SUICÍDIO E A LOUCURA

14. O modo de encarar a vida terrena e a fé no futuro com calma e resignação dão ao Espírito uma serenidade que é a melhor defesa contra a loucura e o suicídio. De fato, a maior parte dos casos de loucura é decorrente da perturbação produzida pelas contrariedades da vida que o homem não tem forças para suportar. Portanto, pela maneira com que o Espiritismo o faz encarar as coisas deste mundo, ele recebe com serenidade, sem tristezas, as amarguras e as decepções que o desesperariam em outras condições, e fica evidente que essa força o faz entender esses acontecimentos e preserva sua razão de abalos, que o perturbariam se não tivesse a compreensão que o Espiritismo lhe dá.
15. Dá-se o mesmo em relação ao suicídio; com exceção daqueles que ocorrem no estado de embriaguez e de loucura, aos quais podemos chamar de inconscientes, é certo que, quaisquer que sejam os motivos particulares, sempre têm como causa um descontentamento. Portanto, aquele que está certo de ser infeliz apenas por um dia, e de serem melhores os dias seguintes, exercita a paciência. Ele só se desespera quando pensa que os seus sofrimentos não terão fim. E o que é a vida humana, em relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas, para aquele que não crê na eternidade e julga que nesta vida tudo se acabará, que está oprimido pelo desgosto e pelo infortúnio, só vê na morte a solução dos seus males. Por não esperar nada, acha natural e até mesmo muito lógico abreviar suas misérias pelo suicídio.
16. A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas são, numa palavra, os maiores incentivadores ao suicídio: elas produzem a covardia moral. E quando se veem homens de ciência se apoiarem sobre a autoridade de seu saber, esforçarem-se para provar aos seus ouvintes ou aos seus leitores que não têm nada a esperar após a morte, não os vemos tentando convencê-los de que, se são infelizes, não têm nada de melhor a fazer do que se matar? Que poderiam lhes dizer para desviá-los disso? Que compensação poderiam lhes oferecer? Que esperança poderiam lhes dar? Nada além do nada. A conclusão é lógica, se o nada é o único remédio heroico; mais vale cair nele imediatamente do que mais tarde, e assim sofrer por menos tempo.
A propagação das ideias do materialismo é, pois, o veneno que introduz em muitas pessoas o pensamento do suicídio. E aqueles que se fazem partidários e propagadores dessas ideias assumem sobre si uma terrível responsabilidade. Com o Espiritismo, a dúvida não é mais permitida e a visão da vida muda. Aquele que crê sabe que a vida se prolonga indefinidamente além-túmulo, embora em outras condições; daí a paciência e a resignação que o afastam naturalmente da ideia do suicídio, resultando, em uma palavra, na coragem moral.
17. Além e acima de tudo, o Espiritismo ainda tem uma outra conclusão também positiva, e talvez mais determinante. Ele nos mostra os próprios suicidas vindo relatar sua posição infeliz e, com os seus relatos, provar que ninguém transgride impunemente a Lei de Deus, que proíbe ao homem dar cabo de sua vida. Para os suicidas, mesmo levando-se em conta que o sofrimento é temporário, e não eterno, nem por isso deixa de ser terrível, e as consequências que dele resultam dão o que pensar a quem quer que seja tentado a se suicidar e partir daqui antes da vontade de Deus. Para contrapor-se à ideia do suicídio, o espírita tem vários motivos: a certeza de uma vida futura, na qual ele sabe que será muito mais feliz quanto mais confiante e resignado tenha sido na Terra; a certeza de que, ao encurtar sua vida, alcançará um resultado completamente oposto daquele que esperava, porque liberta-se de um mal para entrar num outro pior, mais longo e mais terrível; que se engana ao acreditar que, por se matar, chegará mais rápido ao Céu, e, além de tudo, o suicídio também é um obstáculo para que ele se reúna às pessoas de sua afeição, que esperava reencontrar no outro mundo. Daí a consequência de que o suicídio, dando-lhe apenas decepções, está contra os seus interesses. É por estas razões que o conhecimento da Doutrina Espírita já conseguiu impedir um grande número de suicídios. Pode-se concluir que, quando todos forem espíritas, não haverá mais suicídios conscientes. Comparando-se os resultados da doutrina materialista e da Doutrina Espírita, em relação ao suicídio, percebe-se que a lógica do materialismo conduz ao suicídio, enquanto a do Espiritismo o impede, o que é confirmado pela experiência.


O Evangelho Segundo O Espiritismo – Capítulo V – Itens 14 a 17.

"Na fase depressiva, a desesperança alcança posição extremada. A perda de interesse é total. Sentem-se fracassados, sem condições para viver, o que pode levá-los ao suicídio. A melancolia é a tônica da própria vida, podendo externar alguns laivos de delírio. Quando existe algum diálogo, o pessimismo estará sempre à frente das ideias." (Visão Espírita Nas Distonias Mentais - Jorge Andréa.)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

MOTIVOS DE RESIGNAÇÃO

12. Por estas palavras: Bem-aventurados os aflitos, pois serão consolados, Jesus indica, ao mesmo tempo, a recompensa que espera os que sofrem e a resignação que os faz compreender o porquê do sofrimento como o início da cura.
Estas palavras podem ser também entendidas assim: Deveis considerar-vos felizes por sofrer, visto que vossas dores aqui na Terra são os pagamentos das dívidas de vossas faltas passadas, e essas dores suportadas pacientemente na Terra vos poupam séculos de sofrimento na vida futura. Deveis estar felizes, por Deus reduzir vossa dívida, permitindo pagá-la no presente, o que vos assegura a tranquilidade para o futuro.
O homem que sofre assemelha-se a um devedor de uma grande quantia e a quem o credor diz: “Se me pagares hoje mesmo a centésima parte, dou-te quitação de toda a dívida, e estarás livre. Se não o fizeres, te cobrarei até que me pagues o último centavo”. Qual o devedor que não ficaria feliz mesmo passando por privações para se libertar de uma grande dívida, sabendo que pagaria apenas a centésima parte do que devia? Ao invés de reclamar do seu credor, não lhe agradeceria?
Este é o sentido das palavras: Bem-aventurados os aflitos, pois serão consolados. São felizes, porque estão pagando suas dívidas e, depois de pagar, ficarão livres. Porém, se ao procurar quitá-las de uma maneira se endividarem de outra, tornam maior o tempo para sua libertação. Portanto, cada nova falta aumenta a dívida, pois não há uma única falta, qualquer que ela seja, que não arraste consigo sua punição forçada e inevitável. Se não for hoje, será amanhã; se não for nesta vida, será noutra. Entre essas faltas, é preciso colocar em primeiro lugar a falta de submissão à vontade de Deus. Se lamentamos as aflições, se não as aceitamos com resignação e como algo que se deva merecer, se acusamos Deus de injusto, contraímos uma nova dívida que nos faz perder os frutos que a lição dos sofrimentos nos poderia dar. É por isso que recomeçaremos sempre, como se, a um credor que nos cobra, pagássemos algumas parcelas e ao mesmo tempo contraíssemos novas dívidas.
Quando entra no mundo dos Espíritos, o homem assemelha-se ao operário que comparece no dia do pagamento. A uns o Senhor dirá: “Eis o prêmio da tua jornada de trabalho”. A outros, aqueles que se julgaram felizes na Terra, viveram ociosamente e cuja felicidade constituiu-se na satisfação do seu amor-próprio e nos gozos terrenos, Ele dirá: “A ti nada cabe, pois já recebeste teu salário na Terra. Vai e recomeça tua tarefa”.
13. O homem pode suavizar ou agravar a amargura de suas provas pela maneira de encarar a vida terrena. Ele sofre mais quando acredita numa duração mais longa do seu sofrimento. Porém, se encara a vida terrena pelo lado da vida eterna do Espírito, ele a entende como um ponto no infinito e compreende o quanto é breve, dizendo a si mesmo que esse momento difícil vai passar bem depressa. A certeza de um futuro próximo, mais feliz, o sustenta e o encoraja e, ao invés de se lamentar, agradece ao Céu as dores que o fazem avançar. Ao contrário, para aquele que só valoriza a vida corpórea, esta lhe parece interminável e a dor cai sobre ele com todo o seu peso. O resultado da maneira espiritual de encarar a vida diminui a importância das coisas deste mundo, faz com que o homem modere seus desejos, se contente com sua posição sem invejar a dos outros, e atenua a impressão moral dos reveses e das decepções que ele experimenta. O homem adquire uma calma e uma resignação tão úteis à saúde do corpo quanto à da alma, ao passo que, pela inveja, pelo ciúme e pela ambição, tortura-se voluntariamente e assim aumenta as misérias e as angústias de sua curta existência.


O Evangelho Segundo O Espiritismo – Capítulo V – Itens 12 e 13.