segunda-feira, 20 de agosto de 2018

BEM-AVENTURADOS AQUELES QUE TEM OS OLHOS FECHADOS


Vianney, Cura de Ars - Paris, 1863
20. Meus bons amigos, por que me chamastes? Será para que eu imponha as mãos sobre esta pobre sofredora que está aqui e curá-la? Que sofrimento, bom Deus! Ela perdeu a visão, e as trevas se fizeram para ela. Pobre criança! Que ore e espere. Não sei fazer milagres sem a vontade do bom Deus. Todas as curas que pude obter e que vos foram anunciadas devem ser atribuídas apenas ao Senhor, Pai de todos nós.
Em vossas aflições, portanto, olhai sempre o Céu e dizei, do fundo de vosso coração: “Meu Pai, curai-me, mas fazei com que minha alma doente seja curada antes das enfermidades de meu corpo; que minha carne seja castigada se for preciso, para que minha alma se eleve até vós com a brancura que tinha quando a criastes.” Após esta prece, meus bons amigos, que o bom Deus sempre ouvirá, a força e a coragem vos serão dadas e talvez também a cura que pedistes apenas timidamente, como recompensa ao vosso devotamento.
Mas, uma vez que estou aqui, em uma assembleia onde se trata, acima de tudo, de estudos, eu vos direi que aqueles que estão privados da visão deveriam considerar-se como os bem-aventurados da expiação. Lembrai-vos de que o Cristo disse que seria preciso arrancar vosso olho se ele fosse mau, e que mais valeria lançá-lo ao fogo do que ser a causa de vossa perdição. Quantos há em vossa Terra que amaldiçoarão um dia, nas trevas, terem visto a luz! Como são felizes os que, na expiação, são atingidos na vista! Seu olho não será de modo algum motivo de escândalo e de queda. Podem viver inteiramente a vida das almas; podem ver mais do que vós, que vedes claramente... Quando Deus me permite abrir as pálpebras de algum desses pobres sofredores e lhes devolver a visão, digo a mim mesmo: alma querida, por que tu não conheces todas as delícias do Espírito, que vive de meditação e de amor? Então, não pedirias para ver imagens menos puras e menos suaves do que aquelas que podes perceber em tua cegueira.
Bem-aventurado o cego que quer viver com Deus! Mais feliz do que vós que estais aqui, ele sente a alegria, pode tocá-la, vê as almas e pode se lançar com elas nas esferas espirituais, que nem mesmo os predestinados da Terra conseguem ver. O olho aberto está sempre pronto a fazer com que a alma caia; o olho fechado, pelo contrário, está sempre pronto a fazê-la se elevar a Deus. Acreditai em mim, meus bons e caros amigos, a cegueira dos olhos é, muitas vezes, a verdadeira luz do coração, enquanto a visão é, frequentemente, o anjo tenebroso que conduz à morte.
E agora, algumas palavras para ti, minha pobre sofredora: Espera e tem coragem! Se eu te dissesse: Minha filha, teus olhos vão se abrir, como ficarias feliz! E quem sabe se esta alegria não te poria a perder? Tem confiança no bom Deus que fez a felicidade e permite a tristeza! Farei por ti tudo o que me for permitido; mas, por tua vez, ora e reflete sobre o que acabo de te dizer.
Antes que me afaste, vós que estais aqui, recebei minha bênção.

21. Nota: Quando uma aflição não é consequência dos atos da vida presente, é preciso procurar a sua causa em uma vida anterior. O que chamamos de caprichos da sorte nada mais são do que os efeitos da justiça de Deus, que não aplica punições injustas e determina que, entre a falta e a pena, sempre haja uma relação. Se, em sua bondade, lançou um véu sobre nossos atos passados, aponta-nos, entretanto, o caminho, dizendo: “Quem matou pela espada, pela espada morrerá”. Palavras que podem ser traduzidas assim: “Sempre se é punido naquilo em que se pecou”. Se, porém, alguém é afligido pela perda da visão, é que a visão foi para ele um motivo de queda. Talvez também tenha sido o motivo da perda da visão para um outro; talvez alguém tenha se tornado cego pelo excesso de trabalho que lhe impôs, ou em consequência de maus tratos, de falta de cuidado, etc. É desse modo que ele sofre agora a pena de talião. Ele mesmo, em seu arrependimento, pôde escolher essa expiação, aplicando a si próprio estas palavras de Jesus: Se teu olho é motivo de escândalo, arranca-o.

* N. E. - “Os erros explicados se transformarão em verdades.” Erros são erros, nunca se transformarão em verdades. O sentido deve ser este: Os erros que vos foram apresentados como verdades cairão. A verdade triunfará.
* N. E. - “E eis aqui o seu enviado, que vai resplandecer...” Também aqui ficamos fiéis ao texto original, porém, o sentido deve ser este: Eis-me aqui (João), como seu enviado, ela, a manifestação Espírita, resplandecerá como o Sol acima das montanhas.
(1) Esta comunicação foi dada a respeito de uma pessoa cega, para a qual havia sido evocado o
Espírito de J. B. Vianney, Cura de Ars.

domingo, 12 de agosto de 2018

DEIXAI VIR A MIM AS CRIANCINHAS - INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS


João, o Evangelista - Paris, 1863
18. Disse o Cristo: Deixai vir a mim as criancinhas. Estas palavras, sábias em sua simplicidade, não continham apenas um chamamento dirigido às crianças, mas especialmente àqueles que estacionam nos círculos inferiores, onde o infortúnio e a miséria desconhecem a esperança. Jesus atraía para si, para os esclarecer, as criaturas adultas, mas que ainda estavam na infância da inteligência, da compreensão: os fracos, os escravizados e os viciosos. Jesus não ensinaria nada às crianças que elas não pudessem entender, porque, sob o domínio dos instintos da infância, que são um benefício, não entenderiam o ensinamento e nem teriam a vontade própria para o praticar.
Jesus queria que os homens fossem até Ele, com a confiança daqueles pequenos seres, as crianças, de passos vacilantes, cujo chamamento conquista, para o seu, o coração das mulheres que são todas mães. As almas seriam assim envolvidas pela sua terna e misteriosa autoridade. Foi a tocha que ilumina as trevas, o clarim matinal que toca a alvorada. Ele foi o iniciador do Espiritismo, que deve, por sua vez, chamar a si não as criancinhas, mas sim os homens de boa vontade. A vigorosa ação foi iniciada. Não se trata mais de crer por crer e de obedecer maquinalmente; é preciso que o homem examine e siga a lei inteligente, que lhe revelará que ele é universal.
Meus bem-amados, é chegado o tempo em que os erros, explicados, se transformarão em verdades. Nós vos ensinaremos o verdadeiro sentido das parábolas e vos mostraremos a forte correlação que une o que foi ao que é. Eu vos digo em verdade: a manifestação espírita alarga os horizontes, e eis aqui o seu enviado, que vai resplandecer como o Sol acima das montanhas.
Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1861
19. Deixai vir a mim as criancinhas, pois tenho o alimento que fortifica os fracos. Deixai vir a mim os tímidos e os frágeis, que têm necessidade de amparo e de consolo. Deixai vir a mim os ignorantes para que eu os esclareça. Deixai vir a mim todos aqueles que sofrem, a multidão dos aflitos e dos infelizes, e lhes darei o grande remédio para aliviar os males da vida, o segredo para curar suas feridas. Qual é, meus amigos, este remédio supremo que possui a virtude, que aplicada sobre todas as chagas do coração as cicatriza? É o amor, é a caridade! Se tiverdes essa chama divina, o que temereis? Direis em todos os instantes de vossa vida: “Meu Pai, que seja feita a vossa vontade e não a minha; se vos agrada provar-me pela dor e pelas aflições, bendito sejais, pois sei que é para o meu bem que vossa mão pesa sobre mim. Se vos agrada, Senhor, ter piedade de vossa fraca criatura, dar-lhe ao coração as alegrias puras, bendito sejais também, mas fazei com que o amor divino não adormeça na minha alma e que, sem cessar, suba a vossos pés a prece do meu reconhecimento!...”
Se sentirdes amor, tereis tudo o que se pode desejar na Terra, possuireis a pérola sublime, que nem os incidentes nem as maldades daqueles que vos odeiam e vos perseguem poderão vos tirar. Se tiverdes amor, tereis guardado vossos tesouros onde nem a traça nem a ferrugem podem destruir e vereis desaparecer de vossa alma tudo o que possa desonrar-lhe a pureza. Sentireis o peso da matéria aliviar-se dia após dia e, tal como o pássaro que voa nos ares e não se lembra mais da terra, subireis sem cessar, subireis sempre, até que vossa alma possa se fartar deliciada com a verdadeira vida no seio do Senhor.

Por amor à criança
Cap. VIII – Item 18
Nós que tantas vezes rogamos o socorro da Providência Divina, oremos ao coração da Mulher, suplicando pelos filhos das outras! Peçamos às seareiras do bem pelas crianças desamparadas, flores humanas atingidas pela ventania do infortúnio, nas promessas do alvorecer!...
Pelas crianças que foram enjeitadas nos becos de ninguém; pelas que vagueiam sem direção, amedrontadas nas trevas noturnas; pelas que sugam os próprios dedos, contemplando, por vidraças faustosas, a comida que sobeja desperdiçada; pelas que nunca viram a luz da escola; pelas que dormem, estremunhadas, na goela escura do esgoto; pelas que foram relegadas aos abrigos de lama e se transformam em cobaias de vermes destruidores; pelas que a tuberculose espia, assanhada, através dos molambos com que se cobrem; pelas que se afligem no tormento da fome e mentalizam o furto do pão; pelas que jamais ouviram uma voz que as abençoasse e se acreditam amaldiçoadas pelo destino; pelas que foram perfilhadas por falsa ternura e são mantidas nas casas nobres quais pequenas alimárias constantemente batidas pelas varas da injúria; e por aquelas outras que caíram, desorientadas, nas armadilhas do crime e são entregues ao vício e à indiferença, entre os ferros e os castigos do cárcere!
Mães da Terra, enquanto vos regozijais no amor de vossos filhos, descerrai os braços para os órfãos de mãe!... Lembremos o apelo inolvidável do Cristo: “deixai vir a mim os pequeninos”. E recordemos, sobretudo, que se o homem deve edificar as paredes imponentes do mundo porvindouro, só a mulher poderá convertê-lo em alegria da vida e carinho do lar.
Emmanuel

Do Livro O Espírito Verdade – Médium Chico Xavier – Diversos Espíritos

domingo, 5 de agosto de 2018

ESCÂNDALOS. SE VOSSA MÃO É MOTIVO DE ESCÂNDALO, CORTAI-A.


11. Aquele que escandalizar, porém, a um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande mó e o lançassem ao fundo do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos. Porque é necessário que sucedam escândalos, mas ai daquele homem por quem vem o escândalo. Ora, se a tua mão ou o teu pé te escandalizam, corta-o e lança-o fora de ti. Melhor te é entrar na vida manco ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo do inferno. E se o teu olho te escandaliza, tira-o, e lança-o fora de ti. Melhor te é entrar na vida com um só olho do que, tendo dois, seres lançado no fogo do inferno. Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos declaro que os seus anjos no Céu, incessantemente, estão vendo a face de meu Pai, que está nos Céus. Porque o Filho do Homem veio salvar o que havia perecido. (Mateus, 18: 6 a 11)
E se o teu olho direito te serve de escândalo, arranca-o e lança-o fora de ti; porque melhor te é que se perca um de teus membros, do que todo o teu corpo ser lançado no inferno. E se a tua mão direita te serve de escândalo, corta-a e lança-a fora de ti; porque melhor te é que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno. (Mateus, 5: 29 e 30)
12. No sentido vulgar, escândalo é tudo aquilo que choca a moral ou as regras da sociedade de uma maneira evidente, que atrai as atenções. O escândalo não está na ação em si mesma e sim na repercussão que ela pode ter. A palavra escândalo está sempre associada à ideia de um certo tumulto e alvoroço. Muitas pessoas se contentam em evitar o escândalo, pois seu orgulho sofreria com isso, sua reputação seria diminuída entre os homens. Contanto que suas maldades sejam ocultadas, isso lhes basta e sua consciência fica tranquila. Estes são, conforme as palavras de Jesus, sepulcros caiados por fora, mas cheios de podridão por dentro; vasos limpos por fora e sujos por dentro. É muito amplo o significado da palavra escândalo, tantas vezes usada no Evangelho, e precisamos compreender o seu alcance. Escândalo não é somente o que ofende a consciência dos outros, é também tudo o que resulta dos vícios e das imperfeições dos homens, toda reação má de indivíduo para indivíduo, com ou sem repercussão. O escândalo, neste caso, é o resultado efetivo do mal moral.
13. É necessário que sucedam escândalos no mundo, disse Jesus, porque os homens, sendo imperfeitos na Terra, são tendentes a fazer o mal e porque árvores ruins dão frutos ruins. É preciso, pois, entender com estas palavras que o mal é uma consequência da imperfeição dos homens e não que exista para eles a obrigação de praticá-lo.
14. É necessário que sucedam escândalos, pois os homens, estando em expiação na Terra, punem-se a si mesmos, pelo contato de seus vícios, dos quais são as primeiras vítimas e cujos males acabam por compreender, e, somente depois que estiverem cansados de sofrer seus efeitos, procurarão o remédio no bem. A reação desses vícios serve, portanto, ao mesmo tempo de castigo para uns e de provação para outros. É assim que Deus faz surgir o bem do mal e que os próprios homens tiram ensinamentos de coisas ruins ou desagradáveis.
15. Se assim for, poderá se dizer que o mal é necessário e sempre existirá e, se desaparecesse, Deus ficaria sem um poderoso meio de castigar os culpados; portanto, é inútil procurar melhorar os homens. Mas se não houvesse mais culpados, não haveria necessidade de castigos. Suponhamos que toda a Humanidade fosse transformada em homens de bem: ninguém procuraria fazer mal ao próximo e todos seriam felizes, porque seriam bons. Tal é o estado dos mundos evoluídos, de onde o mal foi excluído, e assim será o estado da Terra quando tiver progredido o suficiente. Mas, enquanto alguns mundos avançam, outros se formam, povoados por Espíritos primitivos e que servem, por outro lado, de morada, de exílio e de lugar de expiação para Espíritos imperfeitos, rebeldes, que permanecem no mal e que são rejeitados nos mundos que se tornaram felizes.
16. Mas ai daquele por quem vem o escândalo, ou seja: o mal é sempre o mal. Portanto, aquele que serviu, de alguma modo, de instrumento para a Justiça Divina, cujos maus instintos foram utilizados, nada mais fez do que fazer o mal, deve, portanto, ser punido. É desse modo, por exemplo, que um filho ingrato é uma punição ou uma provação para o pai que o suporta. Talvez esse pai tenha sido um mau filho que fez seu pai sofrer e que está sofrendo como se fosse a pena de talião; mas o filho não terá desculpas por proceder assim, e, por sua vez, poderá ser castigado, tendo filhos rebeldes ou de qualquer outra maneira.
17. Se tua mão é motivo de escândalo, corta-a; afirmativa enérgica que seria um absurdo se tomada ao pé da letra. Significa, simplesmente, a necessidade de destruir em si todas as causas de escândalo, ou seja, do mal. É preciso arrancar do coração todo sentimento impuro e toda tendência viciosa; será melhor para um homem ter a mão cortada, antes que essa mão lhe sirva de instrumento de uma ação má. Será melhor ser privado da visão do que seus olhos servirem para idealizar maus pensamentos. Jesus nada disse de absurdo para quem quer entender o sentido figurado e profundo de suas palavras; mas muitas coisas não podem ser compreendidas sem a chave que o Espiritismo dá.

VIDAS SUCESSIVAS
“Não te maravilhes de te haver dito: Necessário vos é nascer de novo.”
— Jesus. (JOÃO, capítulo 3, versículo 7.)
A palavra de Jesus a Nicodemos foi suficientemente clara.
Desviá-la para interpretações descabidas pode ser compreensível no sacerdócio organizado, atento às injunções da luta humana, mas nunca nos espíritos amantes da verdade legítima.
A reencarnação é lei universal.
Sem ela, a existência terrena representaria turbilhão de desordem e injustiça; à luz de seus esclarecimentos, entendemos todos os fenômenos dolorosos do caminho.
O homem ainda não percebeu toda a extensão da misericórdia divina, nos processos de resgate e reajustamento.
Entre os homens, o criminoso é enviado a penas cruéis, seja pela condenação à morte ou aos sofrimentos prolongados.
A Providência, todavia, corrige, amando... Não encaminha os réus a prisões infectas e úmidas. Determina somente que os comparsas de dramas nefastos troquem a vestimenta carnal e voltem ao palco da atividade humana, de modo a se redimirem, uns à frente dos outros.
Para a Sabedoria Magnânima nem sempre o que errou é um celerado, como nem sempre a vítima é pura e sincera. Deus não vê apenas a maldade que surge à superfície do escândalo; conhece o mecanismo sombrio de todas as circunstâncias que provocaram um crime.
O algoz integral como a vítima integral são desconhecidos do homem; o Pai, contudo, identifica as necessidades de seus filhos e reúne-os, periodicamente, pelos laços de sangue ou na rede dos compromissos edificantes, a fim de que aprendam a lei do amor, entre as dificuldades e as dores do destino, com a bênção de temporário esquecimento.

Livro Caminho, Verdade e Vida – Médium Chico Xavier – Espírito Emmanuel.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

VERDADEIRA PUREZA. MÃOS NÃO LAVADAS.


8. Então os escribas e os fariseus que tinham vindo de Jerusalém se aproximaram de Jesus e disseram: Por que vossos discípulos violam a tradição dos antigos? Por que eles não lavam as mãos quando tomam suas refeições?
Jesus lhes respondeu: Por que, vós mesmos, violais o mandamento de Deus para seguir a vossa tradição? Porque Deus disse: Honra a teu pai e à tua mãe, e o que amaldiçoar a seu pai ou à sua mãe, morra de morte. Vós outros, porém, dizeis: Qualquer um que disser a seu pai ou à sua mãe: toda oferta que faço a Deus te aproveitará a ti, está cumprindo a lei. Pois é certo que o tal não honrará a seu pai ou à sua mãe. Assim é que vós tendes feito vão o mandamento de Deus, pela vossa tradição. Hipócritas, bem profetizou Isaías de vós outros, quando disse: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me honram, ensinando doutrinas e mandamentos que vêm dos homens. E chamando a si o povo, lhes disse: Ouvi e entendei. Não é o que entra pela boca o que faz imundo o homem, mas o que sai da boca, isso é o que faz imundo o homem. Então, chegando-se a Ele, os discípulos disseram: Os fariseus, depois que ouviram o que disseste, ficaram escandalizados. Ele lhes disse: Toda planta que meu Pai não plantou será arrancada pela raiz. Deixai-os; são cegos e condutores de cegos. E se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no abismo. E Pedro Lhe disse: Explica-nos essa parábola. E respondeu Jesus: Também vós outros estais ainda sem inteligência? Não compreendeis que tudo que entra pela boca desce ao ventre e se lança depois num lugar escuso? Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e estas são as que fazem o homem imundo; porque do coração é que saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias. Estas coisas são as que fazem imundo o homem. O comer, porém, com as mãos por lavar, isso não faz imundo o homem. (Mateus, 15:1 a 20)
9. Enquanto falava, um fariseu pediu-Lhe que jantasse em sua casa; e Jesus, indo até lá, colocou-se à mesa. O fariseu começou então a dizer a si próprio: Por que Ele não lavou as mãos antes do jantar? Mas o Senhor lhe disse: Vós outros, fariseus, tendes grande cuidado em limpar o exterior do copo e do prato, mas o interior de vossos corações está repleto de roubos e iniquidades. Como sois insensatos! Aquele que fez o exterior também não fez o interior? (Lucas, 11:37 a 40)
10. Os judeus haviam desprezado os verdadeiros mandamentos de Deus, para se apegarem à prática dos regulamentos estabelecidos pelos homens, fazendo da sua prática rígida caso de consciência. Qualquer ensinamento, ainda que fosse de compreensão simples, tornava-se complicado por causa das exigências formais exteriores. Como era mais fácil seguir essa práticas do que realizar a reforma moral e íntima, isto é, lavar as mãos do que limpar seu coração, os homens se iludiam a si mesmos e acreditavam estar quites para com Deus. Acomodavam-se, assim, às práticas exteriores, continuando a ser como eram, já que era-lhes ensinado que Deus não pediria mais nada do que isso. Eis porque o profeta dizia: É em vão que este povo me honra com os lábios, ensinando mandamentos e leis dos homens. (Isaías, 29:13)
Assim também aconteceu com a doutrina moral do Cristo, que acabou sendo colocada para trás, esquecida, a exemplo do que haviam feito os antigos judeus, que acreditavam que sua salvação era mais garantida pelas práticas exteriores do que pelas morais. É a esses acréscimos, feitos pelos homens à Lei de Deus, que Jesus se refere quando disse: Toda planta que meu Pai Celestial não plantou será arrancada pela raiz.
O propósito da religião é conduzir o homem a Deus. Mas o homem só chega a Deus quando está perfeito; portanto, toda religião que não torna o homem melhor não atinge seu objetivo, e aquela sobre a qual o homem pensa poder se apoiar para fazer o mal ou é falsa, ou foi falsificada em seus fundamentos, e é esse o resultado a que chegam todas aquelas em que a forma se impõe ao fundo. A crença, seja ela qual for, na eficiência dos símbolos exteriores é nula se não impede que se cometam homicídios, adultérios, roubos, calúnias e o mal ao próximo. Ela faz supersticiosos, hipócritas ou fanáticos; mas não faz homens de bem.
Não basta, portanto, ter aparência de pureza; é preciso, antes de mais nada, ter a pureza de coração.

FIDELIDADE A DEUS

Depois das primeiras prédicas de Jesus, respeito aos trabalhos ingentes que a edificação do reino de Deus exigia dos seus discípulos, esboçou-se na fraterna comunidade um leve  movimento de incompreensão. Quê? Pois a Boa Nova reclamaria tamanhos sacrifícios? Então o Senhor, que sondava o íntimo de seus companheiros diletos, os reuniu, uma noite, quando a turba os deixara a sós e já algumas horas haviam passado sobre o pôr do Sol.
Interrogando-os vivamente, provocou a manifestação dos seus pensamentos e dúvidas mais íntimas. Após escutar-lhes as confidências simples e sinceras, o Mestre ponderou:
— Na causa de Deus, a fidelidade deve ser uma das primeiras virtudes.
Onde o filho e o pai que não desejam estabelecer, como ideal de união, a confiança integral e recíproca? Nós não podemos duvidar da fidelidade do Nosso Pai para conosco. Sua dedicação nos cerca os espíritos, desde o primeiro dia. Ainda não o conhecíamos e já ele nos amava. E, acaso, poderemos desdenhar a possibilidade da retribuição? Não seria repudiarmos o título de filhos amorosos, o fato de nos deixarmos absorver no afastamento, favorecendo a negação?
Como os discípulos o escutassem atentos, bebendo-lhe os ensinos, o Mestre acrescentou:
— Tudo na vida tem o preço que lhe corresponde. Se vacilais receosos ante as bênçãos do sacrifício e as alegrias do trabalho, meditai nos tributos que a fidelidade ao mundo exige. O prazer não costuma cobrar do homem um imposto alto e doloroso? Quanto pagarão, em flagelações íntimas, o vaidoso e o avarento? Qual o preço que o mundo reclama ao gozador e ao mentiroso?
Ao clarão alvacento da Lua, como pai bondoso rodeado de seus filhinhos, Jesus reconheceu que os discípulos, diante das suas cariciosa perguntas, haviam transformado a atitude mental, como que iluminados por súbito clarão.
Timidamente, Tiago, filho de Alfeu, contou a história de um amigo que arruinara a saúde, por excessos nos prazeres condenáveis.
Tadeu falou de um conhecido que, depois de ganhar grande fortuna, se havia tornado avarento e mesquinho a ponto de privar-se do necessário, para multiplicar o número de suas moedas, acabando assassinado pelos ladrões.
Pedro recordou o caso de um pescador de sua intimidade, que sucumbira tragicamente, por efeito de sua desmedida ambição.
Jesus, depois de ouvi-los, satisfeito, perguntou:
— Não achais enorme o tributo que o mundo exige dos que se apegam aos seus gozos e riquezas? Se o mundo pede tanto, por que não poderia Deus pedir-nos lealdade ao coração? Trabalhamos agora pela instituição divina do seu reino na Terra; mas, desde quando estará o Pai trabalhando por nós?
As interrogativas pairavam no espaço sem resposta dos discípulos, porque, acima de tudo, eles ouviam a que lhes dava o próprio coração. Do firmamento infinito os reflexos do luar se projetavam no lençol tranquilo do lago, dando a impressão de encantador caminho para o horizonte, aberto sobre as águas, por entre deslumbramentos de luz.
Enquanto os companheiros meditavam no que dissera Jesus, Tiago se lhe dirigiu, nestes termos:
— Mestre, tenho um amigo, de Corazim, que vos ouviu a palavra santificante e desejava seguir-vos; porém, asseverou-me que o reino pregado pela vossa bondade está cheio de numerosos obstáculos, acrescentando que Deus deve mostrar-se a nós outros somente na vitória e na ventura. Devo confessar que hesitei ante as suas observações, mas, agora, esclarecido pelos vossos ensinamentos, melhor vos compreendo e afirmo-vos que nunca esquecerei minha fidelidade ao reino!...
A voz do apóstolo, na sua confissão espontânea, se revelava tocada de entusiasmo doce e amigo e o Senhor, aproveitando a hora para a semeadura divina, exclamou, bondoso:
— Tiago, nem todos podem compreender a verdade de uma só vez.
Devemos considerar que o mundo está cheio de crentes que não entendem a proteção do céu, senão nos dias de tranquilidade e de triunfo. Nós, porém, que conhecemos a vontade suprema, temos que lhe seguir o roteiro. Não devemos pensar no Deus que concede, mas no Pai que educa; não no Deus que recompensa, sim no Pai que aperfeiçoa. Daí se segue quea nossa batalha pela redenção tem de ser perseverante e sem trégua...
Nesse ínterim, todos os companheiros de apostolado, manifestando o interesse que os esclarecimentos da noite lhes causavam, se puseram a perguntar, com respeito e carinho:
— Mestre exclamou um deles —, não seria melhor fugirmos do mundo para viver na incessante contemplação do reino?...
— Que diríamos do filho que se conservasse em perpétuo repouso, junto de seu pai que trabalha sem cessar, no labor da grande família? — respondeu Jesus.
— Mas, de que modo se há de viver como homem e como apóstolo do reino de Deus na face deste mundo? — inquiriu Tadeu.
Em verdade esclareceu o Messias —, ninguém pode servir, simultaneamente, a dois senhores. Fora absurdo viver ao mesmo tempo para os prazeres condenáveis da Terra e para as virtudes sublimes do céu.
O discípulo da Boa Nova tem de servir a Deus, servindo à sua obra neste mundo. Ele sabe que se acha a laborar com muito esforço num grande campo, propriedade de seu Pai, que o observa com carinho e atenta com amor nos seus trabalhos. Imaginemos que esse campo estivesse cheio de inimigos: por toda parte, vermes asquerosos, víboras peçonhentas, tratos de terra improdutiva. E certo que as forças destruidoras reclamarão a indiferença e a submissão do filho de Deus; mas, o filho de coração fiel a seu Pai se lança ao trabalho com perseverança e boa-vontade. Entrará em luta silenciosa com o meio, sofrer-lhe-á os tormentos com heroísmo espiritual, por amor do reino que traz no coração plantará uma flor onde haja um espinho; abrirá uma senda, embora estreita, onde estejam em confusão os parasitos da Terra; cavará pacientemente, buscando as entranhas do solo, para que surja uma gota d’água onde queime um deserto. Do íntimo desse trabalhador brotará sempre um cântico de alegria, porque Deus o ama e segue com atenção.
— Qual a primeira qualidade a cultivar no coração perguntou um dos filhos de Zebedeu —, para que nos sintamos plenamente identificados com a grandeza espiritual da tarefa?
— Acima de todas as coisas — respondeu o Mestre — é preciso ser fiel a Deus.
A pequena assembléia parecia altamente enlevada e satisfeita; mas, André inquiriu:
— Mestre, nestes últimos dias, tenho-me sentido doente e receio não poder trabalhar como os demais companheiros. Como poderei ser fiel a Deus, estando enfermo?
— Ouve — replicou o Senhor com certa ênfase. Nos dias de calma, é fácil provar-se fidelidade e confiança. Não se prova, porém, dedicação, verdadeiramente, senão nas horas tormentosas, em que tudo parece contrariar e perecer. O enfermo tem consigo diversas possibilidades de trabalhar para Nosso Pai, com mais altas probabilidade de êxito no serviço. Tateando ou rastejando, busquemos servir ao Pai que está nos céus, porque nas suas mãos divinas vive o Universo inteiro!...
André, se algum dia teus olhos se fecharem para a luz da Terra, serve a Deus com a tua palavra e com os ouvidos; se ficares mudo, toma, assim mesmo, a charrua. valendo-te das tuas mãos. Ainda que ficasses privado dos olhos e da palavra, das mãos e dos pés, poderias servir a Deus com a paciência e a coragem, porque a virtude é o verbo dessa fidelidade que nos conduzirá ao amor dos amores!
O grupo dos apóstolos calara-se, impressionado, ante aquelas recomendações. O luar esplendia sobre as águas silenciosas. O mais leve ruído não traía o silêncio augusto da hora.
André chorava de emoção, enquanto os outros observavam a figura do Cristo, iluminada pelos clarões da Lua, deixando entrever um amoroso sorriso. Então, todos, impulsionados por soberana força interior, disseram, quase a um só tempo:
Senhor, seremos fiéis!...

Do Livro Boa Nova – Médium Chico Xavier – Espírito Humberto de Campos.

domingo, 22 de julho de 2018

PECADO POR PENSAMENTO. ADULTÉRIO.


5. Vós aprendestes o que foi dito aos antigos: Não cometereis adultério. Mas eu vos digo que qualquer um que tiver olhado para uma mulher cobiçando-a, já, em seu coração, cometeu adultério. (Mateus, 5:27 e 28)
6. A palavra adultério não deve ser entendida aqui no sentido que lhe é próprio, mas sim num sentido mais geral. Jesus empregou-a, muitas vezes, com um sentido mais amplo se referindo ao mal, ao pecado, e todo e qualquer mau pensamento, como ocorre, por exemplo, nesta passagem: Porque, se alguém se envergonhar de mim e de minhas palavras dentre esta geração adúltera e pecadora, o Filho do Homem também se envergonhará dele, quando vier acompanhado dos santos anjos, na glória de seu Pai. (Marcos, 8:38)
A verdadeira pureza não está apenas nos atos; está também no pensamento, pois, aquele que tem puro o coração nem mesmo pensa no mal. Foi o que Jesus quis dizer ao condenar o pecado, mesmo em pensamento, porque é um sinal de impureza.
7. Este ensinamento levanta uma questão, e se pergunta: Sofremos as consequências de um mau pensamento que não produziu nenhum efeito?
Cabe fazer aqui uma importante distinção. À medida que a alma, comprometida no mau caminho, avança na vida espiritual, vai-se esclarecendo e se desfaz pouco a pouco de suas imperfeições, conforme a maior ou menor boa-vontade que o homem emprega, em razão do seu livre-arbítrio. Todo mau pensamento é, portanto, o resultado da imperfeição da alma, mas, de acordo com o desejo que tiver de se purificar, até mesmo este mau pensamento torna-se para ela um motivo de progresso, pois o repele com energia. É um sinal de esforço para se apagar uma imperfeição. Desta forma, não cederá à tentação de satisfazer um mau desejo e, após ter resistido, se sentirá mais forte e alegre com a sua vitória.
Aquela que, ao contrário, não tomou boas resoluções e ainda procura a ocasião de realizar um mau ato, se não o fizer, não será por não querer, mas, sim, pela falta de oportunidade favorável; ela é, assim, tão culpada quanto se o tivesse praticado.
Resumindo: a pessoa que nem sequer tem o pensamento do mal já realizou um progresso; para aquela que tem esse pensamento, mas o repele, o progresso está em vias de realizar-se. Aquela que, enfim, tem esse pensamento, e nele se satisfaz, é porque o mal ainda exerce nela toda a sua influência. Numa, o trabalho está feito; na outra, está por fazer. Deus, que é justo, leva em conta todas essas diferenças, ao responsabilizar os atos e os pensamentos do homem.

Pureza
"Bem-aventurados os puros, porque verão a Deus."
Estudando a palavra do Mestre Divino, recordemos que no mundo, até hoje, não existiu ninguém quanto Ele, com tanta pureza na própria alma.
Cabe-nos, pois, lembrar como Jesus via no caminho da vida, para reconhecermos com segurança que, embora na Terra, sabia encontrar a Presença Divina em todas as situações e em todas as criaturas.
Para muita gente, a manjedoura era lugar desprezível; entretanto, Ele via Deus na humildade com que a Natureza lhe oferecia materno colo e transformou a estrebaria num poema de excelsa beleza.
Para muita gente, Maria de Magdala era mulher sem qualquer valor, pela condição de obsidiada em que se mostrava na vida pública; no entanto, Ele via Deus naquele coração feminino ralado de sofrimento e converteu-a em mensageira da celeste ressurreição.
Para muita gente, Simão Pedro era homem rude e inconstante, indigno de maior consideração; contudo, Ele via Deus no espírito atribulado do pescador semianalfabeto que o povo menosprezava e transmutou-o em paradigma da fé cristã, para todos os séculos.
Para muita gente, Judas era negociante de expressão suspeita, capaz de astuciosos ardis em louvor de si mesmo; no entanto, Ele via Deus na alma inquieta do companheiro que os outros menoscabavam e estendeu-lhe braços amigos até ao fim da penosa deserção a que o discípulo distraído se entregou invigilante.
Para muita gente, Saulo de Tarso era guardião intransigente da Lei Antiga, vaidoso e perverso, na defesa dos próprios caprichos; contudo, Ele via Deus naquele espírito atormentado, e procurou-o pessoalmente, para confiar-lhe embaixada importante.
Se purificares, assim o coração, identificarás a presença de Deus em toda parte, compreendendo que a esperança do Criador não esmorece em criatura alguma, e perceberás que a maldade e o crime são apenas espinheiro e lama que envolvem o campo da alma — o brilhante divino que virá fatalmente à luz...
E aprendendo e servindo, ajudando e amando passarás, na Terra, por mensagem incessante de amor, ensinando os homens que te rodeiam a converter o charco em berço de pão e a entender que, mesmo nas profundezas do pântano, podem surgir lírios perfumados e puros para exaltar a glória de Deus.

Do Livro Religião dos Espíritos – Médium Chico Xavier – Espírito Emmanuel.

domingo, 15 de julho de 2018

DEIXAI VIR A MIM AS CRIANCINHAS


1. Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus. (Mateus, 5:8)
2. Apresentaram a Jesus então umas criancinhas, a fim de que Ele as tocasse. E como seus discípulos repelissem com palavras rudes aqueles que as apresentavam, Jesus vendo isso os repreendeu e lhes disse: Deixai vir a mim as criancinhas, não às impeçais; pois o reino dos Céus é para aqueles que se lhes assemelham. Eu vos digo, em verdade, que todo aquele que não receber o reino de Deus como uma criança, nele não entrará. E tendo-as abraçado, abençoou-as impondo-lhes as mãos. (Marcos, 10:13 a 16)
3. A pureza do coração é inseparável da simplicidade e da humildade. Ela exclui todo pensamento egoísta e orgulhoso. É por isso que Jesus toma a infância como símbolo dessa pureza, como a tinha tomado para o da humildade.
Esta comparação poderia parecer injusta, se considerássemos que o Espírito da criança pode ser muito antigo e que traz ao renascer, para a vida corporal, as imperfeições das quais não se libertou nas existências anteriores. Somente um Espírito que tivesse atingido a perfeição poderia nos dar o modelo da verdadeira pureza. Mas ela é exata do ponto de vista da vida presente, pois a criança, não podendo ainda manifestar nenhuma tendência perversa, oferece-nos a imagem da inocência e da candura. Além do que, Jesus não diz de uma maneira categórica e absoluta que o reino de Deus é para elas, mas sim para aqueles que se lhes assemelham.
4. Uma vez que o Espírito da criança já viveu outras encarnações, por que não se mostra, desde o nascimento, tal como é? Tudo é sabedoria na obra de Deus. A criança tem necessidade de cuidados delicados que somente a ternura maternal pode lhe dar, e essa ternura se torna mais necessária diante da fraqueza e da ingenuidade da criança. Para uma mãe, seu filho é sempre um anjo, e é preciso que seja assim para cativar sua solicitude. Ela não teria o mesmo devotamento se, no lugar da graça ingênua, sentisse, sob traços infantis, um caráter viril e as ideias de um adulto, e muito menos se conhecesse o seu passado.
Aliás, é preciso que a atividade do princípio inteligente seja proporcional à fraqueza do corpo, que não poderia resistir a uma atividade muito grande do Espírito, assim como vemos nas crianças precoces.
É por isso que, na proximidade da encarnação, o Espírito, entrando em perturbação, perde pouco a pouco a consciência de si mesmo, ficando, durante um certo período, numa espécie de sono, durante o qual todas as suas capacidades permanecem adormecidas. Esse estado transitório é necessário para dar ao Espírito um novo ponto de partida e fazê-lo esquecer, em sua nova existência terrena, as coisas que pudessem atrapalhá-lo. Entretanto, seu passado reage sobre ele e, desse modo, renasce para uma vida maior, mais forte moral e intelectualmente, sustentado e acompanhado pela intuição que conserva da experiência adquirida.
A partir do nascimento, suas ideias retomam gradualmente seu impulso, à medida que se desenvolvem os órgãos. Daí pode-se dizer que, durante os primeiros anos, o Espírito é verdadeiramente criança, pois as ideias que formam a qualidade de seu caráter ainda estão adormecidas.
Durante esse tempo em que seus instintos dormitam, ele é mais flexível e, por isso mesmo, mais acessível às impressões que podem modificar sua natureza e fazê-lo progredir, o que torna mais fácil a tarefa dos pais.
O Espírito veste, pois, por um tempo, a roupagem da inocência, e Jesus sabe dessa verdade quando, apesar da anterioridade da alma, toma a criança como símbolo da pureza e da simplicidade.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

MISSÃO DO HOMEM INTELIGENTE NA TERRA


13. Não vos orgulheis do que sabeis, pois esse saber tem limites bem estreitos no mundo que habitais. Mesmo supondo que sejais uma das intelectualidades na Terra, não tendes nenhum direito de vos envaidecer por isso. Se Deus vos fez nascer num meio onde pudestes desenvolver vossa inteligência, foi porque Ele quis que fizésseis uso dela para o bem de todos. Esta é uma missão que Ele vos dá, ao colocar em vossas mãos o instrumento com a ajuda do qual podereis desenvolver, a vosso modo, as inteligências mais atrasadas e conduzi-las a Deus. A natureza do instrumento não indica o uso que dele se deve fazer? A enxada que o jardineiro coloca nas mãos de seu aprendiz não lhe mostra que ele deve cavar? E que diríeis se esse aprendiz, ao invés de trabalhar, levantasse sua enxada para atingir o seu mestre? Diríeis que é horrível e que ele merece ser expulso. Pois bem, assim ocorre com aquele que se serve de sua inteligência para destruir a ideia de Deus e da Providência entre seus irmãos. Ele ergue contra seu mestre a enxada que lhe foi dada para limpar o terreno. Terá assim direito ao salário prometido, ou merece, ao contrário, ser expulso do jardim? Ele o será, não há dúvida, e carregará consigo existências miseráveis e repletas de humilhações até que se curve diante d’Aquele a quem tudo deve.
A inteligência é rica de méritos para o futuro, desde que bem empregada. Se todos os homens talentosos dela se servissem conforme a vontade de Deus, a tarefa dos Espíritos seria fácil, para fazer a Humanidade avançar. Infelizmente, muitos fazem dela um instrumento de orgulho e de perdição para eles próprios. O homem abusa de sua inteligência como de todas as suas outras capacidades e, entretanto, não lhe faltam lições para adverti-lo de que uma poderosa mão pode lhe retirar aquilo que lhe deu. 

(ESE-Capítulo 7, item 13 - Bem-aventurados os pobres de espírito - Instruções dos Espíritos Missão do homem inteligente na terra - Ferdinando, Espírito Protetor - Bordeaux, 1862)

EM NOSSA LUTA
"Segundo o poder que o Senhor me deu para edificação, e não para destruição." - Paulo. (II CORÍNTIOS, 13:10.)

Em nossa luta diária, tenhamos suficiente cuidado no uso dos poderes que nos foram emprestados pelo Senhor.
A idéia de destruição assalta-nos a mente em ocasiões incontáveis.
Associações de forças menos esclarecidas no bem e na verdade?
Somos tentados a movimentar processos de aniquilamento.
Companheiros menos desejáveis nos trabalhos de cada dia?
Intentamos abandoná-los de vez.
Cooperadores endurecidos?
Deixá-los ao desamparo.
Manifestações apaixonadas, em desacordo com os imperativos da prudência evangélica?
Nossos ímpetos iniciais resumem-se a propósitos de sufocação violenta.
Algo que nos contrarie as ideias e os programas pessoais?
Nossa intolerância cristalizada reclama destruição.
Entretanto, qual a finalidade dos poderes que repousam em nossas mãos, em nome do Divino Doador?
Responde-nos Paulo de Tarso, com muita propriedade, esclarecendo-nos que recebeu faculdades do Senhor para edificar e não para destruir.
Não estamos na obra do mundo para aniquilar o que é imperfeito, mas para completar o que se encontra inacabado.
Renovemos para o bem, transformemos para a luz.
O Supremo Pai não nos concede poderes para disseminarmos a morte.
Nossa missão é de amor infatigável para a Vida Abundante.

Do Livro Vinha de Luz – Espírito Emmanuel – Médium Chico Xavier.