domingo, 29 de maio de 2022

A CARIDADE MATERIAL E A CARIDADE MORAL

Irmã Rosália - Paris, 1860

9. “Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que gostaríamos que nos fizessem”. Toda religião e toda moral se encontram nesses dois ensinamentos. Se eles fossem seguidos aqui na Terra, seríeis todos perfeitos, sem ódios, sem conflitos. Direi mais ainda: sem pobreza, visto que, do excesso das sobras da mesa dos ricos, muitos pobres se alimentariam e não veríeis mais nos sombrios bairros em que vivi, durante a minha última encarnação, pobres mulheres, arrastando consigo crianças miseráveis precisando de tudo.

Ricos! Pensai um pouco nisto. Ajudai com o melhor de vós os infelizes. Dai, para que um dia Deus vos retribua o bem que fizerdes, para que encontreis, quando desencarnardes, um cortejo de Espíritos agradecidos, que vos receberão no limiar de um mundo mais feliz.

Se pudésseis saber a alegria que senti ao reencontrar no Além aqueles a quem pude ajudar em minha última encarnação terrena!...

Amai, portanto, ao vosso próximo. Amai-o como a vós mesmos, porque sabeis agora que este infeliz que afastais talvez seja um irmão, um pai, um amigo que rejeitais para longe de vós. E qual não será então vosso desespero ao reconhecê-lo no mundo dos Espíritos!

Espero que tenhais entendido bem o que deve ser a caridade moral, aquela que qualquer um pode praticar, porque não custa nada de material e, no entanto, é a mais difícil de se pôr em prática.

A caridade moral consiste em tolerardes uns aos outros. E isto é o que menos fazeis, neste mundo inferior onde estais encarnados no momento. Há um grande mérito, acreditai em mim, em saber calar-se para deixar falar a um mais tolo. Isto também é uma forma de caridade.

Fazer-se de surdo quando uma palavra de menosprezo escapa de uma boca habituada a zombar, não ver o sorriso desdenhoso que vos recepciona nas casas de pessoas que, frequentemente, sem razão, acreditam ser superiores a vós, quando na vida espírita, a única real, estão algumas vezes bem longe disso: eis um merecimento, não de humildade, mas de caridade, pois não observar os erros dos outros é caridade moral.

Entretanto, esta caridade não deve impedir a outra. Pensai especialmente em não desprezar vosso semelhante. Lembrai-vos de tudo o que vos tenho dito: O pobre rejeitado talvez seja um Espírito que vos foi caro e que se encontra, momentaneamente, em uma posição inferior à vossa. Reencontrei, na vida espiritual, um dos pobres de vossa Terra, a quem pude, por felicidade, ajudar algumas vezes e a quem me cabe agora implorar, por minha vez.

Lembrai-vos de que Jesus disse que somos irmãos e pensai sempre nisso antes de rejeitar o indigente ou o mendigo. Adeus, pensai naqueles que sofrem e orai!

Um Espírito Protetor - Lyon, 1860

10. Meus amigos, tenho ouvido muitos dentre vós dizerem: Como posso fazer caridade se muitas vezes nem mesmo tenho o necessário?

A caridade, meus amigos, é feita de muitas maneiras. Podeis praticá-la em pensamentos, em palavras e em ações. Em pensamentos, orando pelos pobres abandonados que desencarnaram sem mesmo terem visto a luz, uma prece de coração os alivia. Em palavras, ao dirigir aos vossos companheiros de todos os dias alguns bons conselhos. Aos homens aflitos pelo desespero, pelas privações, e que ofendem o nome do Altíssimo, dizei-lhes: “Eu era como vós; sofria, era infeliz, mas acreditei no Espiritismo e, vede, agora sou feliz”. Aos velhos que vos disserem: “É inútil, estou no fim do meu caminho, morrerei como vivi”, respondei: “Deus tem para todos nós uma justiça igual. Lembrai-vos dos trabalhadores da última hora”. Às criancinhas que, já viciadas pela maldade dos mais velhos, vão se perder pelos caminhos, prestes a ceder às más tentações, dizei-lhes: “Deus toma conta de vós, meus queridos pequenos”, e não temais em repetir-lhes sempre estas doces palavras. Elas acabarão por germinar em sua jovem inteligência, e, em vez de pequenos desocupados e viciosos, tereis feito homens. Isso também é uma forma de caridade.

Muitos dentre vós também dizem: “Somos tantos na Terra, Deus não pode ver a cada um de nós”. Escutai bem isto, meus amigos: quando estais no alto de uma montanha, vosso olhar não abrange milhares de grãos de areia que a cobrem? Pois bem! Deus vos observa da mesma maneira. Ele vos deixa usar o vosso livre-arbítrio, como deixais esses grãos de areia se moverem ao sabor do vento que os dispersa. A diferença é que Deus, em sua misericórdia infinita, colocou no fundo de vosso coração uma sentinela vigilante que se chama consciência. Escutai-a. Ela vos dará somente bons conselhos. Às vezes podereis entorpecê-la opondo-lhe o espírito do mal. Então ela se cala. Mas ficai certos de que a pobre desprezada se fará ouvir, assim que deixardes que ela perceba em vós a sombra do remorso. Escutai-a, interrogai-a, e com frequência achareis consolo no conselho que dela tiverdes recebido.

Meus amigos, a cada novo regimento o general fornece uma bandeira.

Eu vos dou a minha, este ensinamento do Cristo: Amai-vos uns aos outros. Praticai-o. Reuni-vos ao redor desta bandeira e recebereis a felicidade e a consolação.

CARIDADE DO PENSAMENTO

Sabemos todos que o pensamento é onda de vida criadora, emitindo forças e atraindo-as, segundo a natureza que lhe é própria.

Fácil entender, à vista disso, que nos movemos todos num oceano de energia mental.

Cada um de nós é um centro de princípios atuantes ou de irradiações que liberamos, consciente ou inconscientemente.

Sem dúvida, a palavra é o veículo natural que nos exprime as ideias e as intenções que nos caracterizem, mas o pensamento, em si, conquanto a força mental seja neutra qual ocorre à eletricidade, é o instrumento genuíno das vibrações benéficas ou negativas que lançamos de nós, sem a apreciação imediata dos outros.

Meditemos nisso, afastemos do campo íntimo qualquer expressão de ressentimento, mágoa, queixa ou ciúme, modalidades do ódio, sempre suscetível de carrear a destruição.

Se tens fé em Deus, já sabes que o amor é a presença da luz que dissolve as trevas.

Cultivemos a caridade do pensamento.

Dá o que possas, em auxílio aos outros, no entanto, envolve de simpatia e compreensão tudo aquilo que dês.

No exercício da compaixão, que é a beneficência da alma, revisa o que sentes, o que desejas, o que acreditas e o que falas, efetuando triagem dos propósitos mais ocultos que te inspirem, a fim de que se traduzam em bondade e entendimento, porque mais dia menos dia, as nossas manifestações mais íntimas se evidenciam ou se revelam, inelutavelmente, de vez que tudo aquilo que colocamos, no oceano da vida, para nós voltará.

Livro Paciência – Emmanuel – Médium Chico Xavier.

domingo, 22 de maio de 2022

CONVIDAR OS POBRES E OS ESTROPIADOS

7. E Ele também disse àquele que o tinha convidado: Quando derdes um banquete, não convideis nem vossos amigos nem vossos irmãos, nem vossos parentes, nem vossos vizinhos que forem ricos, para que também eles o convidem em seguida, por sua vez, e que assim vos retribuam o que tenham recebido de vós. Mas quando derdes um festim, convidai os pobres, os estropiados*, os coxos e os cegos. E ficareis felizes por eles não terem meios de vos retribuir; isso vos será retribuído na ressurreição dos justos.

Um daqueles que estavam à mesa, tendo escutado estas palavras, Lhe disse: Feliz daquele que comer do pão no reino de Deus! (Lucas, 14:12 a 15)

8. Jesus disse: Quando derdes um banquete, não convideis vossos amigos e sim os pobres e os estropiados. Estas palavras, absurdas se tomadas ao pé da letra, são sublimes se delas entendermos o espírito.

Jesus não queria dizer que, ao invés de seus amigos, é preciso reunir à mesa os mendigos da rua. Sua linguagem era quase sempre simbólica, e, para homens incapazes de entender as formas delicadas do pensamento, eram necessárias imagens fortes, que produzissem o efeito semelhante às cores berrantes. A substância de seus pensamentos se revela nestas palavras: Sereis felizes, pois não têm meios de vos retribuir. Isto quer dizer que não se deve de modo algum fazer o bem esperando por retribuição, mas pelo puro prazer de fazê-lo. Para fazer uma comparação surpreendente, Jesus diz: Convidai para vossos banquetes os pobres, pois sabeis que estes não poderão vos retribuir. E por banquetes é preciso entender não a refeição propriamente dita, mas sim a participação na fartura de que desfrutais.

Estas palavras podem, entretanto, ser entendidas num sentido mais literal. Quantas pessoas só convidam à sua mesa aqueles que podem, como dizem, lhes honrar, ou que podem retribuir-lhes o convite! Outras, ao contrário, encontram satisfação em receber seus parentes ou amigos menos afortunados; e quem não os tem entre os seus? É a forma de prestar-lhes um grande serviço discretamente. Estes, sem ir recrutar os cegos e os estropiados, praticam o ensinamento de Jesus, se o fazem por benevolência, sem ostentação, e se sabem disfarçar o benefício com uma sincera cordialidade.

AGUILHÕES

“Duro é para ti recalcitrar contra o aguilhão.”

Jesus. (ATOS, capítulo 9, versículo 5.)

O caminho evolutivo está sempre repleto de aguilhões.

De outro modo, não enxergaríamos a porta redentora.

Entrega-se Deus aos filhos da Criação inteira, reparte com todos os tesouros de seu amor infinito, estimula-os a se elevarem, através de mil modos diferentes; entretanto, existem círculos numerosos como a Terra, em que as criaturas não se apercebem dessas realidades gloriosas e paralisam a marcha, dormindo no leito da ilusão.

Perante tal inércia, os mensageiros da Providência, aos quais se confiou a tarefa de iluminação dos que estacionam na sombra, promovem recursos para que se verifique o despertar.

Cientes de que Deus dá tudo — a vida, os caminhos, os bens infinitos, os gênios inspiradores e só pede às criaturas se lhe dirijam aos braços paternais — esses divinos emissários organizam os aguilhões, por amor aos seus tutelados.

Nesse programa, criou Jesus os mais nobres incitamentos, para a esfera terrestre. A riqueza e a pobreza, a fealdade e a formosura, o sofrimento e a luta são aguilhões ou oportunidades instituídos pelo Cristo, a benefício dos homens.

Cada existência e cada pessoa tem a sua dificuldade particular, simbolizando ensejo bendito.

Analisa a tua vida, situa teus aguilhões e não te voltes contra eles.

Se um espírito da grandeza de Paulo de Tarso não podia recalcitrar, imagina o que se pedirá do nosso esforço.

Livro Caminho, Verdade e Vida – Emmanuel – Médium Chico Xavier.

domingo, 15 de maio de 2022

O ÓBOLO DA VIÚVA

5. Jesus, estando sentado em frente ao gazofilácio, observava como o povo nele deitava o dinheiro, como as pessoas ricas davam muito. Veio então uma pobre viúva que colocou apenas duas pequenas moedas. Então Jesus, tendo chamado seus discípulos, lhes disse: Eu vos digo, em verdade, que essa pobre viúva deu mais do que todos os que colocaram no gazofilácio, pois todos os outros deram o que era de sua abundância, mas esta deu de sua penúria, até mesmo tudo o que tinha e tudo o que lhe restava para viver. (Marcos, 12:41 a 44; Lucas, 21:1 a 4)

6. Muitas pessoas lamentam não poder fazer todo o bem que desejariam por falta de recursos suficientes e desejam a riqueza, dizem elas, para fazer da fortuna um bom uso. Sem dúvida a intenção é louvável e talvez muito sincera em alguns, mas será que é totalmente desinteressada em todos? Não há aqueles que, desejando fazer o bem aos outros, ficariam felizes se começassem primeiro a fazer o bem para si mesmos? Se permitirem mais prazeres, se proporcionarem um pouco mais do luxo que lhes falta, com a condição de darem o resto aos pobres? Esta segunda intenção, oculta, disfarçada, que encontrariam no fundo de seus corações se o interrogassem, anula o mérito da intenção, visto que a verdadeira caridade faz o homem pensar primeiro nos outros, para depois pensar em si mesmo. O sublime da caridade, neste caso, seria procurar em seu próprio trabalho, pelo emprego de suas forças, de sua inteligência e de seus talentos, os recursos que faltam para realizar suas intenções generosas. Aí estaria o sacrifício mais agradável ao Senhor. Infelizmente a maior parte das pessoas sonha com meios fáceis de se enriquecer rapidamente e sem trabalho, correndo atrás de ilusões, como as descobertas de tesouros, uma oportunidade favorável, recebimento de heranças inesperadas, etc. O que dizer daqueles que esperam encontrar auxiliares, entre os Espíritos, para ajudá-los nas pesquisas dessa natureza? Certamente não conhecem o objetivo sagrado do Espiritismo, muito menos a missão dos Espíritos, a quem Deus permite se comunicar com os homens. Decorre, por isso, serem punidos pelas decepções. (O Livro dos Médiuns, questões 294 e 295)

Aqueles cuja intenção está isenta de todo interesse pessoal devem se consolar com a sua impossibilidade em fazer o bem que gostariam, sabendo que a dádiva do pobre, como no caso da viúva no ensinamento de Jesus, que deu do pouco que possuía, pesou mais na balança de Deus do que o ouro do rico que dá sem se privar de nada. Sem dúvida, seria grande a satisfação de poder socorrer largamente a pobreza; mas, se isso é impossível, é preciso se submeter e se limitar a fazer o que se pode. Aliás, não é apenas com dinheiro que se podem secar as lágrimas e não é preciso ficar inativo por não possuí-lo! Aquele que quer, sinceramente, ser útil aos seus irmãos encontra mil ocasiões para fazê-lo. Quem as procura, as encontrará, seja de uma maneira ou de outra, pois não há ninguém que, dentro de um padrão de vida normal, não possa prestar um serviço, prestar-se a uma consolação, aliviar um sofrimento físico ou moral, fazer um esforço útil. Na falta de dinheiro, cada um não possui seu trabalho, seu tempo, seu repouso, dos quais pode dar uma pequena parte? Aí também está a dádiva do pobre, o óbolo, a esmola da viúva.

A POBREZA FELIZ

Quem se empobrece de ambições inferiores, adquire a luz que nasce da sede de perfeição espiritual.

Quem se empobrece de orgulho, encontra a fonte oculta da humildade vitoriosa.

Quem se empobrece de exigências da vida física, recebe os tesouros inapreciáveis da alma.

Quem se empobrece de aflições inúteis, em torno das posses efêmeras da Terra, surpreende a riqueza da paz em si mesmo.

Quem se empobrece de vaidade, amealha as bênçãos do serviço.

Quem se empobrece de ignorância, ilumina-se com a chama da sabedoria.

Não vale amontoar ilusões que nos enganam somente no transcurso de um dia.

Não vale sermos ricos de mentira, no dia de hoje, para sermos indigentes da verdade, no dia de amanhã.

Ser grande, à frente dos homens, é sempre fácil. A astúcia consegue semelhante fantasia sem qualquer obstáculo.

Mas ser pequenino, diante das criaturas, para servirmos realmente aos interesses do Senhor, junto da Humanidade, é trabalho de raros.

Bem aventurada será sempre a pobreza que sabe se enriquecer de luz para a imortalidade, porque o rico ocioso da Terra é o indigente da Vida Mais Alta e o pobre esclarecido do mundo é o espírito enobrecido das Esferas Superiores, que será aproveitado na extensão da Obra de Deus.

Livro Dinheiro – Emmanuel – Médium Chico Xavier.

sábado, 7 de maio de 2022

OS INFORTÚNIOS OCULTOS

4. Nas grandes calamidades, a caridade se manifesta e veem-se campanhas nobres e generosas para remediar os desastres. Mas, ao lado dessas tragédias gerais, existem milhares de tragédias particulares, que passam despercebidas: é o caso das pessoas que jazem num leito de dor sem se queixarem. São a esses desventurados discretos e ocultos que a verdadeira generosidade sabe procurar sem esperar que lhe venham pedir assistência.

Quem é esta mulher com ar distinto, vestida de modo simples, embora com distinção, seguida de uma jovem também vestida modestamente? Ela entra numa casa de miserável aspecto, onde, sem dúvida, é conhecida, pois, à porta, saúdam-na com respeito. Onde ela vai? Sobe até um quarto humilde. Ali mora uma mãe de família cercada de criancinhas. Com sua chegada, a alegria brilha nas faces enfraquecidas. É porque ela vem acalmar todas as dores. Traz o necessário, acompanhada de doces e consoladoras palavras, que fazem aceitar o benefício sem se sentirem envergonhados, uma vez que esses infortunados não são de maneira alguma profissionais da mendicância. O pai está no hospital e, durante esse tempo, a mãe não pode suprir as necessidades da família. Graças a esta senhora, as pobres crianças não sofrerão nem com o frio nem com a fome. Irão à escola bem agasalhadas, no seio da mãe haverá o sustento para amamentar os pequeninos e, se entre elas alguma adoece, a boa senhora nenhuma dúvida terá em tratá-la em tudo o que necessite. Dali se dirigirá ao hospital para levar ao pai algum consolo e tranquilizá-lo sobre a situação de sua família. Na esquina, um veículo a espera, verdadeiro depósito de tudo o que doa a seus protegidos, que visita sucessivamente. Ela não lhes pergunta a sua crença nem sua opinião, pois, para ela, todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Quando termina a visita, diz a si mesma: Comecei bem o meu dia. Qual é seu nome? Onde mora? Ninguém o sabe. Para os infelizes, é um nome que não revela nada, mas é o anjo da consolação. E, à noite, um cântico de bênçãos se eleva por ela até o Criador: católicos, judeus, protestantes, todos a bendizem.

Por que se veste de uma maneira tão simples? É que não quer insultar a miséria com seu luxo. Por que sua jovem filha a acompanha? É para ensinar-lhe como se deve praticar o bem. Sua filha também quer fazer a caridade, mas sua mãe lhe diz: “O que podes dar, minha filha, se nada tens de teu? Se te dou algo para dar aos outros que mérito terás? Na realidade serei eu quem estará fazendo a caridade, e tu terás o mérito. Isso não é justo. Quando formos visitar os doentes, tu me ajudarás, já que cuidar deles é dar alguma coisa. Isso não te parece suficiente? Nada é mais simples: aprende a fazer coisas úteis, e confeccionarás roupinhas para essas crianças. Dessa maneira, darás algo que vem de ti”. É assim que essa mãe verdadeiramente cristã forma sua filha para a prática das virtudes, ensinadas pelo Cristo. É espírita? O que importa!

Para a sociedade, é a mulher do mundo, pois sua posição o exige. Mas ninguém sabe o que ela faz, pois não quer outra aprovação senão a de Deus e da sua consciência. Entretanto, um dia, um acontecimento imprevisto conduziu até sua casa uma de suas protegidas a oferecer-lhe serviços manuais. Esta a reconheceu e quis pedir a bênção à sua benfeitora. “Silêncio!”, disse-lhe ela. “Não diga nada a ninguém”. Assim também falava Jesus.

DIFERENÇAS

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.”

Jesus. (João, 13:35.)

Nas variadas escolas do Cristianismo, vemos milhares de pessoas que, de alguma sorte, se ligam ao Mestre e Senhor.

Há corações que se desfazem nos louvores ao Grande Médico, exaltando-lhe a intercessão divina nos acontecimentos em que se reconheceram favorecidos, mas não passam das afirmativas espetaculares, qual se vivessem indefinidamente mergulhados em maravilhosas visões.

São os simplesmente beneficiários e sonhadores.

Há temperamentos ardorosos que impressionam da tribuna, através de preleções eruditas e comoventes, em que relacionam a posição do Grande Renovador, na religião, na filosofia e na história, não avançando, contudo, além dos discursos preciosos.

São os simplesmente sacerdotes e pregadores.

Há inteligências primorosas que vazam páginas sublimes de crença consoladora, arrancando lágrimas de emoção aos leitores ávidos de conhecimento revelador, todavia, não ultrapassam o campo do beletrismo religioso.

São os simplesmente escritores e intelectuais.

Todos guardam recursos e méritos especializados.

Existe, no entanto, nos trabalhos da Boa Nova, um tipo de cooperador diferente.

Louva o Senhor com pensamentos, palavras e atos, cada dia.

Distribui o tesouro do bem, por intermédio do verbo consolador, sempre que possível.

Escreve conceitos edificantes, em torno do Evangelho, toda vez que as circunstâncias lho permitem.

Ultrapassa, porém, toda pregação falada ou escrita, agindo incessantemente na sementeira do bem, em obras de sacrifício próprio e de amor puro, nos moldes de ação que o Cristo nos legou.

Não pede recompensa, não pergunta por resultados, não se sintoniza com o mal. Abençoa e ajuda sempre.

Semelhante companheiro é conhecido por verdadeiro discípulo do Senhor, por muito amar.

Livro Fonte Viva – Emmanuel – Médium Chico Xavier. 

domingo, 1 de maio de 2022

FAZER O BEM SEM OSTENTAÇÃO

1. Tomai cuidado para não fazer vossas boas obras serem vistas diante dos homens; de outro modo, não recebereis recompensa alguma de vosso Pai que está nos Céus. Quando derdes esmola, não façais soar a trombeta diante de vós, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem honrados pelos homens.

Eu vos digo, em verdade, que já receberam sua recompensa. Mas, quando derdes uma esmola, que vossa mão esquerda não saiba o que faz a vossa mão direita, a fim de que a esmola fique em segredo.

E vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos dará a recompensa. (Mateus, 6:1 a 4)

2. Uma grande multidão seguia Jesus quando este descia do monte; e ao mesmo tempo um leproso veio a Ele e o adorou dizendo: Senhor, se quiseres podes me curar. Jesus estendendo a mão tocou-o e disse-lhe: Assim o quero, fique curado. E nesse momento a lepra foi curada. Depois Jesus lhe disse: Não diga isso a ninguém; mas vá mostrar aos sacerdotes e ofereça o donativo prescrito por Moisés, a fim de que isso lhes sirva de testemunho. (Mateus, 8:1 a 4)

3. Fazer o bem sem se exibir, sem ostentação, é um grande mérito. Esconder a mão que dá é ainda mais louvável. É o sinal indiscutível de uma grande superioridade moral, porque, para compreender além da vulgaridade comum as coisas do mundo, é preciso elevar-se acima da vida presente e se identificar com a vida futura. É preciso, em uma palavra, colocar-se acima da Humanidade para renunciar à satisfação que o aplauso dos homens proporciona e pensar na aprovação de Deus. Aquele que estima mais a aprovação dos homens do que a de Deus prova que tem mais fé nos homens do que em Deus e que a vida presente vale mais do que a vida futura. Se disser o contrário, age como se não acreditasse no que diz. Quantos ajudam apenas na esperança de que essa ajuda tenha grande repercussão; que, em público, dão uma grande soma e que ocultamente não dariam nem um centavo! Eis porque Jesus disse: Aqueles que fazem o bem com ostentação já receberam sua recompensa. De fato, aquele que procura sua glorificação na Terra pelo bem que faz já se pagou a si mesmo. Deus não lhe deve mais nada. Resta-lhe apenas receber a punição do seu orgulho.

Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita é um ensinamento que caracteriza admiravelmente a beneficência modesta. Mas, se existe a modéstia real, há também a fingida, isto é: a simulação da modéstia. Há pessoas que escondem a mão que dá, tendo o cuidado de deixar à mostra uma parte da sua ação, para que alguém observe o que fazem. Ridícula comédia dos ensinamentos do Cristo! Se os benfeitores orgulhosos são desconsiderados entre os homens, muito mais o serão diante de Deus! Estes também já receberam sua recompensa na Terra. Foram vistos; ficaram satisfeitos por terem sido vistos: é tudo o que terão.

Qual será, portanto, a recompensa daquele que faz pesar seus benefícios sobre o beneficiado, que lhe obriga, de alguma maneira, os testemunhos de reconhecimento, que lhe faz sentir sua posição realçando as dificuldades e os sacrifícios a que se impôs por ele? Para este, nem mesmo existe a recompensa terrena, pois ele é privado da doce satisfação de ouvir abençoar seu nome. E aí está o primeiro castigo de seu orgulho. As lágrimas que ele seca em benefício de sua vaidade, ao invés de subirem ao Céu, recaem sobre o coração do aflito e o ferem. O bem que ele faz não lhe traz o menor proveito, pois, ele o lamenta, e todo benefício lamentado é moeda falsa e sem valor.

A beneficência sem exibicionismo tem um duplo mérito: além de ser caridade material é caridade moral. Ela respeita os sentimentos do beneficiado. Faz com que, em aceitando o benefício, seu amor próprio não seja atingido, protegendo assim sua dignidade de homem, pois este poderá aceitar um serviço, mas não uma esmola. Acontece que converter um serviço em esmola, conforme a maneira como é proposto que se faça, é humilhar aquele que o recebe e sempre há orgulho e maldade em humilhar alguém. A verdadeira caridade, pelo contrário, é delicada, habilidosa e sutil em disfarçar o benefício, em evitar até as menores aparências que ferem, pois toda contrariedade moral aumenta o sofrimento do necessitado. Ela sabe encontrar palavras doces e afáveis que colocam o beneficiado à vontade em face do benfeitor, enquanto a caridade orgulhosa o humilha. O sublime da verdadeira generosidade é quando o benfeitor, invertendo os papéis, encontra um meio de parecer ser ele próprio o beneficiado frente àquele a quem presta um favor. Eis o que querem dizer estas palavras: Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita.

MODO DE FAZER

“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento

que houve também em Cristo Jesus.”

Paulo. (Filipenses, 2:5.)

Todos fazem alguma coisa na vida humana, mas raros não voltam à carne para desfazer quanto fizeram.

Ainda mesmo a criatura ociosa, que passou o tempo entre a inutilidade e a preguiça, é constrangida a tornar à luta, a fim de desintegrar a rede de inércia que teceu ao redor de si mesma.

Somente constrói, sem necessidade de reparação ou corrigenda, aquele que se inspira no padrão de Jesus para criar o bem.

Fazer algo em Cristo é fazer sempre o melhor para todos:

- sem expectativa de remuneração;

- sem exigências;

- sem mostrar-se;

- sem exibir superioridade;

- sem tributos de reconhecimento;

- sem perturbações.

Em todos os passos do Divino Mestre, vemo-lo na ação incessante, em favor do indivíduo e da coletividade, sem prender-se.

Da carpintaria de Nazaré à cruz de Jerusalém, passa fazendo o bem, sem outra paga além da alegria de estar executando a Vontade do Pai.

Exalta o vintém da viúva e louva a fortuna de Zaqueu, com a mesma serenidade.

Conversa amorosamente com algumas criancinhas e multiplica o pão para milhares de pessoas, sem alterar-se.

Reergue Lázaro do sepulcro e caminha para o cárcere, com a atenção centralizada nos Desígnios Celestes.

Não te esqueças de agir para a felicidade comum, na linha infinita dos teus dias e das tuas horas. Todavia, para que a ilusão te não imponha o fel do desencanto ou da soledade, ajuda a todos, indistintamente, conservando, acima de tudo, a glória de ser útil, “de modo que haja em nós o mesmo sentimento que vive em Jesus-Cristo”. 

Livro Fonte Viva – Emmanuel – Médium Chico Xavier. 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

O DUELO

Adolfo, Bispo de Argel - Marmande, 1861

11. Só é verdadeiramente grande aquele que, considerando a vida como uma viagem que o deve levar a um destino certo, faz pouco caso das contrariedades do caminho e dele nunca se desvia. De olhos fixos na meta a que se destina, pouco lhe importa se os obstáculos e os espinhos do caminho podem lhe causar danos, já que eles apenas o roçam sem o ferir e não o impedem de avançar. Arriscar a vida em duelo para se vingar é uma injúria, é recuar diante das provações que tem que passar. É sempre um crime aos olhos de Deus. Se não fôsseis enganados, como sois, pelos vossos preconceitos, o veríeis como uma coisa ridícula e uma suprema loucura aos olhos dos homens.

É crime o homicídio pelo duelo; até mesmo a vossa legislação o reconhece. Ninguém tem o direito, em nenhum caso, de tirar a vida de seu semelhante. É crime aos olhos de Deus, que vos indica vossa linha de conduta. Neste caso, mais do que em qualquer outro, sois juízes em causa própria. Lembrai-vos de que sereis perdoados conforme o que perdoardes. Pelo perdão vos aproximais da Divindade, pois a clemência é irmã do poder. Enquanto uma gota de sangue correr na Terra pela mão do homem, o verdadeiro reino de Deus não terá chegado, reino de paz e de amor que deverá afastar para sempre de vosso Planeta o rancor, a discórdia e a guerra. Então, a palavra duelo existirá em vossa língua apenas como uma lembrança vaga e distante de um passado que não existirá mais, e os homens só admitirão disputar entre si, em competições, a nobre prática do bem.

Santo Agostinho - Paris, 1862

12. O duelo pode, sem dúvida, em alguns casos, ser considerado como uma prova de coragem física, de desprezo pela vida, mas é de forma indiscutível a prova de uma covardia moral semelhante ao suicídio: o suicida não tem a coragem de encarar de frente as contrariedades e aflições da vida, e o duelista não a tem para suportar as ofensas. O Cristo não vos disse que há mais honra e coragem em oferecer a face esquerda àquele que bateu na direita do que em se vingar de uma injúria? Cristo não disse a Pedro no Jardim das Oliveiras: Coloca a tua espada na bainha, pois aquele que matar pela espada, pela espada morrerá? Por estas palavras, Jesus não condena o duelo? De fato, meus filhos, que coragem é essa, nascida de um caráter violento, sanguinário e colérico, que reage à primeira ofensa? Onde está, então, a grandeza da alma daquele que, à menor injúria, quer lavá-la em sangue? Mas que ele trema! porque sempre, no fundo de sua consciência, uma voz lhe gritará: “Caim! Caim! Que fizeste de teu irmão?” “Foi necessário sangue para salvar minha honra”, dirá ele a essa voz. Mas ela lhe responderá: “Tu quiseste salvá-la diante dos homens pelos poucos instantes que te restavam a viver na Terra e não pensaste em salvá-la perante Deus!” Pobre tolo! Quanto sangue o Cristo vos pediria por todas as ofensas que Lhe tendes feito! Não somente O machucastes com os espinhos e a lança, não somente O pregastes na cruz infamante, mas ainda em meio à agonia, Ele pôde escutar as zombarias que Lhe foram dirigidas. Que reparação, após tantas ofensas, vos pediu Ele? O último grito do Cordeiro foi uma prece para seus carrascos. Tal como Ele, perdoai e orai por aqueles que vos ofendem.

Amigos, lembrai-vos deste preceito: Amai-vos uns aos outros, e, então, ao golpe dado pelo ódio, respondereis com um sorriso, e, à ofensa, com o perdão. Sem dúvida, o mundo se voltará furioso contra vós e vos chamará de covardes. Elevai a cabeça bem ao alto e mostrai que a vossa fronte também não receia ser coroada de espinhos a exemplo do Cristo. No entanto, que vossa mão nunca queira ser cúmplice de um homicídio, que permite, digamos, uma falsa aparência de honra, mas que é apenas orgulho e amor-próprio. Ao vos criar, Deus vos deu o direito de vida e de morte uns aos outros? Não! Esse direito somente a Natureza o tem, para se reformar e se reconstruir a si mesma, mas quanto a vós, nem sobre o vosso corpo tendes direitos. Como o suicida, o duelista estará marcado de sangue quando comparecer perante Deus e, tanto sobre um como sobre o outro, a Soberana Justiça atuará em longos e dolorosos sofrimentos. Se Ele ameaçou com sua justiça aquele que dissesse a seu irmão: És louco, quanto mais não será severa a pena para aquele que se apresentar diante d’Ele com as mãos manchadas do sangue de seu irmão!

INIMIGOS

“Amai, pois, os vossos inimigos.”

Jesus. (Lucas, Capítulo 6, Versículo 35.)

A afirmativa do Mestre Divino merece meditação em toda parte. Naturalmente que a recomendação, quanto ao amor aos inimigos, pede análise especial.

A multidão, em geral, não traduz o verbo amar senão pelas atividades cariciosas. Para que um homem demonstre capacidade afetiva, ante os olhos vulgares, precisará movimentar imenso cabedal de palavras e atitudes ternas, quando sabemos que o amor pode resplandecer no coração das criaturas sem qualquer exteriorização superficial. Porque o Pai nos confira experiências laboriosas e rudes, na Terra ou noutros mundos, não lhe podemos atribuir qualquer negação de amor.

No terreno a que se reporta o Amigo Divino, é justo nos detenhamos em legítimas ponderações.

Onde há luta há antagonismo, revelando a existência de circunstâncias com as quais não seria lícito concordar em se tratando do bem comum. Quando o Senhor nos aconselhou amar os inimigos, não exigiu aplausos ao que rouba ou destrói, deliberadamente, nem mandou multiplicarmos as asas da perversidade ou da má-fé.

Recomendou, realmente, auxiliarmos os mais cruéis; no entanto, não com aprovação indébita e sim com a disposição sincera e fraternal de ajudá-los a se reerguerem para a senda divina, através da paciência, do recurso reconstrutivo ou do trabalho restaurador. O Mestre, acima de tudo, preocupou-se em preservar-nos contra o veneno do ódio, evitando-nos a queda em disputas inferiores, inúteis ou desastrosas.

Ama, pois, os que se mostram contrários ao teu coração, amparando-os fraternalmente com todas as possibilidades de socorro ao teu alcance, convicto de que semelhante medida te livrará do calamitoso duelo do mal contra o mal.

Livro Pão Nosso – Emmanuel – Médium Chico Xavier.

domingo, 17 de abril de 2022

O ÓDIO

Fénelon - Bordeaux, 1861 

10. Amai-vos uns aos outros e sereis felizes. Fazei por amar aqueles que vos inspiram indiferença, ódio e desprezo. O Cristo, que deveis ter como modelo, vos deu o exemplo desse devotamento.

Missionário do amor, amou até dar seu sangue e a vida. O sacrifício de amar aqueles que vos ofendem e vos perseguem é difícil, mas é, exatamente, o que vos torna superior a eles. Se os odiais como eles vos odeiam, não valeis mais do que eles. Amá-los, esta é a substância que deveis oferecer a Deus no altar de vossos corações; essência de agradável fragrância, cujos perfumes sobem até Ele. Mas, ainda que a lei do amor nos mande amar indistintamente a todos nossos irmãos, ela não nos livra o coração do convívio e da ação dos maus; esta é uma das provas mais difíceis, bem o sei, uma vez que durante minha última existência passei por essa tortura. Mas Deus está presente e pune, nesta vida e na outra, aqueles que falham na lei do amor. Não vos esqueçais, meus queridos filhos, que o amor aproxima-nos de Deus, e o ódio nos afasta d’Ele.

NO FUTURO

“E não mais ensinará cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão,

dizendo: — Conhece o Senhor! porque todos me conhecerão, desde o menor

deles até ao maior.” — Paulo. (HEBREUS, CAPÍTULO 8, VERSÍCULO 11.)

Quando o homem gravar na própria alma

Os parágrafos luminosos da Divina Lei,

O companheiro não repreenderá o companheiro,

O irmão não denunciará outro irmão.

O cárcere cerrará suas portas,

Os tribunais quedarão em silêncio.

Canhões serão convertidos em arados,

Homens de armas volverão à sementeira do solo.

O ódio será expulso do mundo,

As baionetas repousarão,

As máquinas não vomitarão chamas para o incêndio e para a morte,

Mas cuidarão pacificamente do progresso planetário.

A justiça será ultrapassada pelo amor.

Os filhos da fé não somente serão justos,

Mas bons, profundamente bons.

A prece constituir-se-á de alegria e louvor

E as casas de oração estarão consagradas ao trabalho sublime da fraternidade suprema.

A pregação da Lei

Viverá nos atos e pensamentos de todos,

Porque o Cordeiro de Deus

Terá transformado o coração de cada homem

Em tabernáculo de luz eterna,

Em que o seu Reino Divino

Resplandecerá para sempre.

Livro Pão Nosso – Emmanuel – Médium Chico Xavier.