segunda-feira, 13 de maio de 2019

A BENEFICÊNCIA


Adolfo, Bispo de Argel - Bordeaux, 1861
11. A beneficência, meus amigos, vos proporcionará neste mundo os mais puros e os mais doces prazeres, as alegrias do coração que não são abaladas nem pelo remorso, nem pela indiferença. Se pudésseis compreender tudo o que existe de grande e doce na generosidade das belas almas, esse sentimento que faz com que vejamos nosso próximo como a nós mesmos, com que nos dispamos com alegria para cobrir nosso irmão. Pudésseis, meus amigos, não ter outra ocupação senão a de fazer os outros felizes! Quais as festas do mundo que poderíeis comparar a essas festas alegres, quando, como representantes da Divindade, dais alegria a essas pobres famílias, que conhecem da vida apenas dificuldades e decepções. Quando vedes subitamente essas faces descoradas ficarem iluminadas de esperança, pois não tinham pão, esses infelizes e seus filhos pequenos, ignorando que viver é sofrer, choravam, gritavam e repetiam estas palavras, que penetravam como punhais agudos no coração maternal: “Estou com fome!...” Compreendei o quanto são deliciosas as impressões daquele que encontra a alegria onde, no momento anterior, só havia desespero! Entendei quais são vossas obrigações para com os vossos irmãos! Ide! Ide ao encontro do infortúnio. Ide em socorro, principalmente, das misérias escondidas, pois essas são as mais dolorosas. Ide, meus bem-amados, e lembrai-vos destas palavras do Salvador: Quando vestirdes um destes pequenos, pensai que é a mim que estais vestindo!
Caridade! Palavra sublime, que resume todas as virtudes, és tu que deves conduzir os povos à felicidade! Praticando-te, terão prazeres infinitos no futuro e, durante seu exílio na Terra, tu serás sua consolação, a antecipação das alegrias que provarão mais tarde, quando se abraçarão todos juntos no amor de Deus. Foste tu, virtude divina, que me proporcionaste os únicos momentos de alegria que senti na Terra. Que meus amigos encarnados possam acreditar na voz do amigo que lhes fala e lhes diz: É na caridade que deveis procurar a paz do coração, o contentamento da alma, o remédio contra as aflições da vida. Quando estiverdes a ponto de acusar a Deus, lançai um olhar abaixo de vós e vereis quanta miséria há para aliviar, quantas pobres crianças sem família, quantos velhos que não têm uma mão amiga para os amparar e, na morte, lhes fechar os olhos! Quanto bem a ser feito! Não vos lamenteis, mas, pelo contrário, agradecei a Deus e distribuí sem limites, à vontade, vossa simpatia, vosso amor, vosso dinheiro, a todos que, pobres dos bens deste mundo, se enfraquecem no sofrimento e na solidão. Colhereis aqui na Terra alegrias muito doces e mais tarde... apenas Deus o sabe!...

São Vicente de Paulo - Paris, 1858

12. Sede bons e caridosos: esta é a chave dos Céus que tendes em vossas mãos. Toda felicidade eterna está contida neste ensinamento de Jesus: Amai-vos uns aos outros. A alma somente pode se elevar às regiões espirituais pelo devotamento ao próximo e apenas encontra felicidade e consolo na prática da caridade. Sede bons, amparai vossos irmãos, deixai de lado a terrível chaga do egoísmo. Se cumprido, este dever abrirá o caminho da felicidade eterna para vós. Quem dentre vós não sentiu seu coração pulsar, sua alegria interior se ampliar ao relato de uma boa ação, de uma obra verdadeiramente caridosa? Se procurásseis apenas o prazer que proporciona uma boa ação, estaríeis sempre no caminho do progresso espiritual. Os exemplos não vos faltam. O que falta é a boa vontade, que é rara. Notai que a história guarda lembranças de amor e respeito por muitos homens de bem.
Não vos ensinou o Cristo tudo o que diz respeito a essas virtudes de caridade e de amor? Por que deixar de lado os seus divinos ensinamentos? Por que fechar os olhos e os ouvidos às suas divinas palavras e o coração às suas bondosas recomendações? Gostaria que se desse mais importância, mais fé, às leituras evangélicas. No entanto, abandona-se esse livro, faz-se dele uma palavra vazia, uma carta fechada, deixa-se esse código admirável no esquecimento. Vossos males são consequência apenas do abandono voluntário desses resumos das leis divinas. Lede essas páginas ardentes do devotamento de Jesus e meditai sobre elas.
Homens fortes, armai-vos. Homens fracos, fazei de vossa doçura e de vossa fé armas decisivas; sede mais determinados e mais constantes na propagação de vossa nova doutrina. O que viemos vos dar é apenas um encorajamento. É apenas para estimular vosso zelo e vossas virtudes que Deus nos permite esta manifestação, porém, já vos bastaria a ajuda de Deus e da vossa própria vontade, pois as manifestações espíritas se produzem especialmente para aqueles que têm os olhos fechados e os corações indóceis. A caridade é a virtude fundamental que deve sustentar todo o edifício das virtudes terrenas. Sem ela, as outras não existem. Sem a caridade não existe esperança num futuro melhor, não existe interesse moral que nos guie. Sem caridade não há fé, pois a fé é apenas um raio de luz que faz brilhar uma alma caridosa.
A caridade é a âncora eterna de salvação em todos os mundos. É a mais pura emanação do próprio Criador; é sua própria virtude dada por Ele à criatura. Como desconhecer esta suprema bondade? Qual seria o pensamento, o coração suficientemente perverso para reprimir e expulsar este sentimento inteiramente divino? Qual seria o filho suficientemente mau para se rebelar contra esse doce carinho: a caridade? Não ouso falar do que fiz, pois os Espíritos também são modestos quanto às suas obras. Mas acredito naquela que comecei como uma das que mais devem contribuir para o alívio dos vossos semelhantes. Vejo, freqüentemente, os Espíritos pedirem que lhes seja dada por missão continuar a minha tarefa. Eu as vejo, minhas doces e caras irmãs, em sua piedosa e divina missão, vejo-as praticar a virtude que eu recomendei, com toda alegria que proporciona essa existência de devotamento e sacrifícios. É uma grande alegria para mim ver o quanto seu caráter é honrado, o quanto sua missão é amada e docemente protegida. Homens de bem, de boa e forte vontade, uni-vos para continuar amplamente a obra de propagação da caridade. Encontrareis a recompensa dessa virtude no seu próprio exercício; não há alegria espiritual que ela não proporcione já na vida presente. Sede unidos; amai-vos uns aos outros conforme os ensinamentos do Cristo. Que assim seja!

Cáritas - Martirizada, em Roma, Lyon, 1861

13. Meu nome é Caridade, sou o caminho principal que leva a Deus; segui-me, pois sou o objetivo a que todos deveis visar.
Fiz esta manhã minha caminhada habitual e, com o coração aflito, vos digo: Meus amigos, quantas misérias, quantas lágrimas e quanto tendes a fazer para secá-las! Procurei em vão consolar pobres mães, dizendo-lhes ao ouvido: Coragem! Há bons corações que vos protejem. Não sereis abandonadas. Paciência! Deus está aí, sois suas amadas, sois suas eleitas. Elas pareciam ter me ouvido e voltavam para mim os seus grandes olhos ansiosos. Via-se em seus pobres rostos que o corpo, esse tirano do Espírito, estava com fome e que, se minhas palavras tranquilizavam um pouco seu coração, não enchiam seu estômago. Eu repetia ainda: Coragem! Coragem! Então uma pobre mãe, bem jovem, que amamentava uma criancinha, tomou-a em seus braços e a estendeu no espaço vazio, como a me pedir para proteger esse pobre e pequeno ser, que se alimentava ao seio estéril apenas de um alimento insuficiente.
Mais adiante, meus amigos, vi pobres velhos sem trabalho e também sem abrigo, atormentados por todos os sofrimentos da necessidade e envergonhados da sua miséria, sem coragem, eles, que nunca mendigaram, a implorar a piedade dos passantes. Eu, com o coração tomado de compaixão e que nada tenho, fiz-me de mendiga para eles e vou por toda parte estimular a beneficência, inspirar bons pensamentos aos corações generosos e sensíveis. Por isso, venho até vós, meus amigos, e vos digo: Há por aí infelizes cujo prato não tem pão, cuja lareira não tem fogo e cuja cama não tem cobertor. Não vos digo o que deveis fazer. Deixo a iniciativa aos vossos bons corações. Se vos ditasse vossa linha de conduta, não teríeis o mérito de vossa boa ação. Apenas vos digo: Eu sou a caridade e vos estendo a mão pelos vossos irmãos sofredores.
Mas se peço, também dou e dou muito. Convido-vos a um grande banquete e vos forneço a árvore onde vos fartareis! Vede como é bela, como está carregada de flores e frutos! Vinde, colhei, pegai todos os frutos dessa bela árvore que se chama beneficência. No lugar dos ramos que tirardes dela, fixarei todas as boas ações que fizerdes e levarei essa árvore até Deus para que a carregue de novo, pois a beneficência é inesgotável. Segui-me, portanto, meus amigos, a fim de que sejais anotados entre aqueles que se alistam sob minha bandeira. Nada receeis: eu vos conduzirei pelo caminho da salvação, pois sou a Caridade.

Cáritas - Lyon, 1861

14. Há muitas maneiras de se fazer a caridade, que muitos de vós julgais ser somente a esmola, mas entre esmola e caridade há uma grande diferença. A esmola, meus amigos, é algumas vezes útil, pois dá alívio aos pobres, mas é quase sempre humilhante tanto para quem a dá quanto para quem a recebe. A caridade, ao contrário, une o benfeitor ao ajudado e, além disso, disfarça-se de todas as maneiras! Pode-se ser caridoso até mesmo com os nossos familiares, com nossos amigos, sendo indulgentes uns para com os outros, perdoando as fraquezas, tendo cuidado para não ferir o amor-próprio de ninguém, e para vós, espíritas, em vossa maneira de agir para com aqueles que não pensam como vós; levando os menos esclarecidos a crer e isso sem ofendê-los, sem alterar sua maneira de pensar, mas levando-os alegremente a reuniões onde poderão nos ouvir e onde saberemos encontrar a brecha do coração por onde poderemos penetrar. Eis também uma das formas da caridade.
Escutai agora o que é a caridade para com os pobres, esses deserdados aqui da Terra, mas recompensados por Deus, e que, dependendo do que vós fizerdes por eles, saberão aceitar suas misérias sem queixumes. Vou vos esclarecer com um exemplo.
Observo, algumas vezes na semana, uma reunião de senhoras, de todas as idades, que, para nós, como sabeis, são todas irmãs. O que estão fazendo? Elas trabalham muito rápido. Os dedos são ágeis; vejo também como seus rostos estão radiantes e como seus corações vibram todos juntos! Mas qual é seu objetivo? É que elas vêem se aproximar o inverno, que será rude para as pobres famílias. As formigas não puderam guardar, durante o verão, o alimento necessário para o sustento, e a maior parte de seus pertences está empenhada. As pobres mães se preocupam e choram pensando nas suas criancinhas que, neste inverno, passarão frio e fome! Mas, paciência, minhas pobres mulheres! Deus inspirou a outras, mais afortunadas do que vós; elas estão reunidas e vos confeccionarão roupinhas, depois, num destes dias, quando a neve tiver coberto a terra e murmurardes dizendo: “Deus não é justo”, que esta é a expressão comum nos vossos períodos de sofrimento, então vereis aparecer um dos filhos dessas boas trabalhadoras, que se constituíram em operárias dos pobres. Era para vós que elas trabalhavam, e vossas lamentações se transformarão em bênçãos, porque, no coração dos infelizes, o amor aparece bem perto do ódio.
Como é preciso a todas essas trabalhadoras um estímulo, vejo as comunicações dos bons Espíritos lhes chegar de todas as partes. Os homens que fazem parte dessa sociedade trazem também sua ajuda, fazendo uma dessas leituras que tanto agradam. E nós, para recompensar o cuidado de todos e de cada um em particular, prometemos a essas trabalhadoras laboriosas uma boa clientela, que lhes pagará, à vista, em bênçãos, a única moeda que tem valor nos Céus, assegurando-lhes ainda, e sem temor de errar, que estas bênçãos jamais lhes faltarão.

Um Espírito Protetor - Lyon, 1861

15. Meus caros amigos, a cada dia ouço dentre vós os que dizem: “Sou pobre, não posso fazer a caridade”, e a cada dia vos vejo faltar com a indulgência para com os vossos semelhantes. Não lhes perdoais nada e vos colocais como juízes muitas vezes severos, sem vos perguntar se ficaríeis satisfeitos que fizessem o mesmo convosco. A indulgência também não é caridade? Vós que podeis fazer apenas a caridade indulgente, fazei pelo menos essa, mas fazei-a sem limitações. Em relação à caridade material, vou lhes contar uma história do outro mundo.
Dois homens acabavam de morrer. Deus tinha dito: “Enquanto esses dois homens viverem, serão colocados, em sacos separados, cada uma de suas boas ações e, quando de sua morte, serão pesados os sacos. Quando esses dois homens chegaram à sua hora final, Deus fez com que trouxessem os dois sacos. Um estava pesado, grande, bem cheio, nele ressoava o metal que o enchia. O outro era muito pequeno e tão fino que podiam-se ver as poucas moedas que continha. Cada um daqueles homens reconheceu seu saco: Eis o meu, disse o primeiro, posso reconhecê-lo; fui rico e dei muito. Eis o meu, disse o outro, sempre fui pobre. Não tinha quase nada para repartir. Mas que surpresa! Quando os dois sacos foram colocados na balança, o maior tornou-se leve e o menor ficou pesado, tanto que elevou muito o outro prato da balança. Então Deus disse ao rico: Tu deste muito, é verdade, mas deste por exibicionismo e vaidade e para ver teu nome figurar em todos os templos do orgulho, e, ainda que doando, não te privaste de nada. Vai para a esquerda e fica satisfeito que a esmola ainda te seja contada como alguma coisa. Depois disse ao pobre: Deste pouco, meu amigo, mas cada uma destas moedas que estão nesta balança representam uma privação para ti. Se não deste esmola, fizeste a caridade e, o que é melhor: fizeste a caridade naturalmente, sem pensar que a levariam em conta. Foste indulgente e não julgaste teu semelhante; pelo contrário, desculpaste-o de todas suas ações. Passa à direita e vai receber tua recompensa”.

João - Bordeaux, 1861

16. A mulher rica, feliz, que não tem necessidade de empregar seu tempo com o trabalho de casa, não pode dedicar algumas horas em benefício dos seus semelhantes? Compre, com as sobras do seus gastos desnecessários, algum agasalho para os que, infelizes, não têm o que vestir; que confeccione, com as suas delicadas mãos, alguma roupa que, embora simples, seja um aconchegante agasalho para quem precisa, e ajude a uma pobre mãe a vestir o filho que vai nascer e, ainda que o seu próprio filho fique sem algum pequeno enfeite de renda, o pobre, agasalhado, não ficará esquecido. Isto é trabalhar na seara do Senhor.
E tu, pobre trabalhadora, que não tens sobras, mas que queres, por amor aos teus irmãos, também dar do pouco do que possuis, dedica algumas horas de teu dia, de teu tempo, que é o teu único tesouro. Faze alguns trabalhos delicados que chamam a atenção dos mais afortunados. Com o produto do teu esforço poderás também proporcionar aos teus irmãos tua parte de consolo. Terás, talvez, algumas fitas a menos, mas darás sapatos àqueles que têm os pés descalços.
E vós, mulheres devotas a Deus, trabalhai também em sua obra, mas que vossos trabalhos delicados e dispendiosos não sejam feitos apenas para enfeitar vossas capelas, para chamar atenção sobre vossa habilidade e paciência. Trabalhai, minhas filhas, e que o produto do vosso trabalho seja destinado ao socorro dos vossos irmãos, os pobres, que como vós são filhos bem-amados de Deus. Trabalhar por eles é glorificá-Lo. Sede para eles a Providência que diz: Às aves do céu, Deus dá seu alimento. Que o ouro e a prata, tecidos pelas vossas mãos, se transformem em roupas e em alimentos para os necessitados. Fazei isso e vosso trabalho será abençoado.
E todos vós que podeis produzir, dai. Dai vosso talento, vossas inspirações, vosso coração, que Deus vos abençoará. Poetas, literatos, que sois lidos pelas pessoas da sociedade, satisfazei o gosto deles, mas que o produto de alguma de vossas obras seja consagrado ao consolo dos infelizes. Pintores, escultores, artistas de todos os gêneros, que vossa inteligência também venha em ajuda dos vossos irmãos, não tereis por isso diminuído a vossa glória e tereis aliviado o sofrimento de muitos.
Todos vós podeis dar. Qualquer que seja a vossa condição, tendes alguma coisa que podeis dividir. De tudo o que Deus vos tenha dado, disso deveis uma parte àquele que não tem nem o necessário, pois, em seu lugar, ficaríeis felizes se alguém dividisse convosco. Vossos tesouros na Terra serão um pouco menores, mas vossos tesouros no Céu serão maiores e lá colhereis cem vezes mais o que tiverdes semeado e ajudado aqui na Terra.

Beneficência e a Caridade

A beneficência alivia a provação.
A caridade extingue o mal.
A beneficência auxilia.
A caridade soluciona.
Distribuirás a mancheias algo do ouro que se te derrama da bolsa, entretanto, se nesse algo não puseres a luz de teu amor, em forma de respeito e carinho, ante as chagas do semelhante, não terás construído nele a compreensão que o fará reconciliar-se consigo próprio.
Oferecerás de tua inteligência preciosos recursos aos que desesperam na ignorância, mas, se furtas à lição a benção da simpatia, não estenderás ao companheiro que o sofrimento enceguece a claridade precisa.
Não é dádiva de tua abastança ou o valor de tua cultura que importam no serviço de elevação e aprimoramento da paisagem que te rodeia.
É o modo com que passas a exprimi-los, cedendo de ti mesmo naquilo que o Senhor te emprestou para distribuir, porquanto a atitude é o fator de fixação desse ou daquele sentimento no vasto caminho humano.
Vale mais o exemplo vivo de compaixão que a frase adornada de exaltação à virtude pronunciada tão-somente com a boca e aparece com mais beleza o gesto de fraternidade que a esmola reconfortante suscetível de ser espalhada por ti simplesmente com o esforço mecânico do braço.
Isso, porque todos precisamos de renovação interior para o acesso aos tesouros do espírito e, fazendo o bem, com o impulso de nossas próprias almas, valorizaremos a palavra com que venhamos a emiti-lo, edificando a vida em nós e junto de nós, com o próximo e conosco, realizando sempre o melhor.

Livro Dinheiro – Chico Xavier – Espírito Emanuel.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

A CARIDADE MATERIAL E A CARIDADE MORAL


Irmã Rosália - Paris, 1860

9. “Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que gostaríamos que nos fizessem”. Toda religião e toda moral se encontram nesses dois ensinamentos. Se eles fossem seguidos aqui na Terra, seríeis todos perfeitos, sem ódios, sem conflitos. Direi mais ainda: sem pobreza, visto que, do excesso das sobras da mesa dos ricos, muitos pobres se alimentariam e não veríeis mais nos sombrios bairros em que vivi, durante a minha última encarnação, pobres mulheres, arrastando consigo crianças miseráveis precisando de tudo.
Ricos! Pensai um pouco nisto. Ajudai com o melhor de vós os infelizes. Dai, para que um dia Deus vos retribua o bem que fizerdes, para que encontreis, quando desencarnardes, um cortejo de Espíritos agradecidos, que vos receberão no limiar de um mundo mais feliz.
Se pudésseis saber a alegria que senti ao reencontrar no Além aqueles a quem pude ajudar em minha última encarnação terrena!...
Amai, portanto, ao vosso próximo. Amai-o como a vós mesmos, porque sabeis agora que este infeliz que afastais talvez seja um irmão, um pai, um amigo que rejeitais para longe de vós. E qual não será então vosso desespero ao reconhecê-lo no mundo dos Espíritos!
Espero que tenhais entendido bem o que deve ser a caridade moral, aquela que qualquer um pode praticar, porque não custa nada de material e, no entanto, é a mais difícil de se pôr em prática.
A caridade moral consiste em tolerardes uns aos outros. E isto é o que menos fazeis, neste mundo inferior onde estais encarnados no momento. Há um grande mérito, acreditai em mim, em saber calar-se para deixar falar a um mais tolo. Isto também é uma forma de caridade. Fazer-se de surdo quando uma palavra de menosprezo escapa de uma boca habituada a zombar, não ver o sorriso desdenhoso que vos recepciona nas casas de pessoas que, frequentemente, sem razão, acreditam ser superiores a vós, quando na vida espírita, a única real, estão algumas vezes bem longe disso: eis um merecimento, não de humildade, mas de caridade, pois não observar os erros dos outros é caridade moral.
Entretanto, esta caridade não deve impedir a outra. Pensai especialmente em não desprezar vosso semelhante. Lembrai-vos de tudo o que vos tenho dito: O pobre rejeitado talvez seja um Espírito que vos foi caro e que se encontra, momentaneamente, em uma posição inferior à vossa. Reencontrei, na vida espiritual, um dos pobres de vossa Terra, a quem pude, por felicidade, ajudar algumas vezes e a quem me cabe agora implorar, por minha vez.
Lembrai-vos de que Jesus disse que somos irmãos e pensai sempre nisso antes de rejeitar o indigente ou o mendigo. Adeus, pensai naqueles que sofrem e orai!
Um Espírito Protetor - Lyon, 1860
10. Meus amigos, tenho ouvido muitos dentre vós dizerem: Como posso fazer caridade se muitas vezes nem mesmo tenho o necessário?
A caridade, meus amigos, é feita de muitas maneiras. Podeis praticá-la em pensamentos, em palavras e em ações. Em pensamentos, orando pelos pobres abandonados que desencarnaram sem mesmo terem visto a luz, uma prece de coração os alivia. Em palavras, ao dirigir aos vossos companheiros de todos os dias alguns bons conselhos. Aos homens aflitos pelo desespero, pelas privações, e que ofendem o nome do Altíssimo, dizei-lhes: “Eu era como vós; sofria, era infeliz, mas acreditei no Espiritismo e, vede, agora sou feliz”. Aos velhos que vos disserem: “É inútil, estou no fim do meu caminho, morrerei como vivi”, respondei: “Deus tem para todos nós uma justiça igual. Lembrai-vos dos trabalhadores da última hora”. Às criancinhas que, já viciadas pela maldade dos mais velhos, vão se perder pelos caminhos, prestes a ceder às más tentações, dizei-lhes: “Deus toma conta de vós, meus queridos pequenos”, e não temais em repetir-lhes sempre estas doces palavras. Elas acabarão por germinar em sua jovem inteligência, e, em vez de pequenos desocupados e viciosos, tereis feito homens. Isso também é uma forma de caridade.
Muitos dentre vós também dizem: “Somos tantos na Terra, Deus não pode ver a cada um de nós”. Escutai bem isto, meus amigos: quando estais no alto de uma montanha, vosso olhar não abrange milhares de grãos de areia que a cobrem? Pois bem! Deus vos observa da mesma maneira. Ele vos deixa usar o vosso livre-arbítrio, como deixais esses grãos de areia se moverem ao sabor do vento que os dispersa. A diferença é que Deus, em sua misericórdia infinita, colocou no fundo de vosso coração uma sentinela vigilante que se chama consciência. Escutai-a. Ela vos dará somente bons conselhos. Às vezes podereis entorpecê-la opondo-lhe o espírito do mal. Então ela se cala. Mas ficai certos de que a pobre desprezada se fará ouvir, assim que deixardes que ela perceba em vós a sombra do remorso. Escutai-a, interrogai-a, e com frequência achareis consolo no conselho que dela tiverdes recebido.
Meus amigos, a cada novo regimento o general fornece uma bandeira. Eu vos dou a minha, este ensinamento do Cristo: Amai-vos uns aos outros. Praticai-o. Reuni-vos ao redor desta bandeira e recebereis a felicidade e a consolação.

AUXILIAR E SERVIR

"... E amarás o teu próximo como a ti mesmo". – Jesus (Lucas, 10:27)

Irmãos!

Quando estiverdes à beira do desânimo porque alfinetadas do mundo vos hajam ferido o coração; quando o desespero vos ameace, à vista das provações que se vos abatem na senda, reflitamos naqueles companheiros outros que se agoniam, junto de nós, em meio dos espinheiros que nos marginam a estrada; nos que foram relegados à solidão sem voz de amigo que os reconforte; nos que tateiam, a pleno dia, ansiando por fio de luz que lhes atenue a cegueira; nos que perderam o lume da razão e se despencaram na vala da loucura; nos que foram arrojados à orfandade quando a existência na Terra se lhes esboça em começo; naqueles que estão terminando a romagem no mundo atirados à ventania; nos que desistiram do refúgio na fé e se encaminham, desorientados, para as trevas do suicídio; nos que se largaram à delinquência comprando arrependimentos e lágrimas na segregação em que expiam as próprias faltas; nos que choram escravizados à penúria, a definharem de inanição!...

Façamos isso e aprenderemos a agradecer a Bondade de Deus que a todos nos reúne em sua bênção de amor, de vez que a melancolia se nos transformará, no ser, em clarão de piedade, ensinando-nos a observar que por mais necessitados ou sofredores estejamos dispomos ainda do privilégio de colaborar com Jesus na edificação do Mundo Melhor, pela felicidade de auxiliar e pelo dom de servir.

Livro Segue-me – Chico Xavier – Espírito Emanuel.

domingo, 28 de abril de 2019

CONVIDAR OS POBRES E OS ESTROPIADOS


7. E Ele também disse àquele que o tinha convidado: Quando derdes um banquete, não convideis nem vossos amigos nem vossos irmãos, nem vossos parentes, nem vossos vizinhos que forem ricos, para que também eles o convidem em seguida, por sua vez, e que assim vos retribuam o que tenham recebido de vós. Mas quando derdes um festim, convidai os pobres, os estropiados, os coxos e os cegos. E ficareis felizes por eles não terem meios de vos retribuir; isso vos será retribuído na ressurreição dos justos.
Um daqueles que estavam à mesa, tendo escutado estas palavras, Lhe disse: Feliz daquele que comer do pão no reino de Deus! (Lucas, 14:12 a 15)
8. Jesus disse: Quando derdes um banquete, não convideis vossos amigos e sim os pobres e os estropiados. Estas palavras, absurdas se tomadas ao pé da letra, são sublimes se delas entendermos o espírito. Jesus não queria dizer que, ao invés de seus amigos, é preciso reunir à mesa os mendigos da rua. Sua linguagem era quase sempre simbólica, e, para homens incapazes de entender as formas delicadas do pensamento, eram necessárias imagens fortes, que produzissem o efeito semelhante às cores berrantes. A substância de seus pensamentos se revela nestas palavras: Sereis felizes, pois não têm meios de vos retribuir. Isto quer dizer que não se deve de modo algum fazer o bem esperando por retribuição, mas pelo puro prazer de fazê-lo. Para fazer uma comparação surpreendente, Jesus diz: Convidai para vossos banquetes os pobres, pois sabeis que estes não poderão vos retribuir. E por banquetes é preciso entender não a refeição propriamente dita, mas sim a participação na fartura de que desfrutais.
Estas palavras podem, entretanto, ser entendidas num sentido mais literal. Quantas pessoas só convidam à sua mesa aqueles que podem, como dizem, lhes honrar, ou que podem retribuir-lhes o convite! Outras, ao contrário, encontram satisfação em receber seus parentes ou amigos menos afortunados; e quem não os tem entre os seus? É a forma de prestar-lhes um grande serviço discretamente. Estes, sem ir recrutar os cegos e os estropiados, praticam o ensinamento de Jesus, se o fazem por benevolência, sem ostentação, e se sabem disfarçar o benefício com uma sincera cordialidade.

MARCAS

"Desde agora ninguém me moleste, porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus." - Paulo. (GÁLATAS, 6:17.)

Todas as realizações humanas possuem marca própria.
Casas, livros, artigos, medicamentos, tudo exibe um sinal de identificação aos olhos atentos.
Se medida semelhante é aproveitada na lei de uso dos objetos transitórios, não se poderia subtrair o mesmo princípio, na catalogação de tudo o que se refira à vida eterna.
Jesus possui igualmente os sinais dEle.
A imagem utilizada por Paulo de Tarso, em suas exortações aos gálatas, pode ser mais extensa.
As marcas do Cristo não são apenas as da cruz, mas também as de sua atividade na experiência comum.
Em cada situação, o homem pode revelar uma demonstração do Divino Mestre.
Jesus forneceu padrões educativos em todas as particularidades da sua passagem pelo mundo. O Evangelho no-lo apresenta nos mais diversos quadros, junto ao trabalho, à simplicidade, ao pecado, à pobreza, à alegria, à dor, a glorificação e ao martírio. Sua atitude, em cada posição da vida, assinalou um traço novo de conduta para os aprendizes.
Todos os dias, portanto, o discípulo pode encontrar recursos de salientar suas ações mais comuns com os registros de Jesus.
Quando termine cada dia, passa em revista as pequeninas experiências que partilhaste na estrada vulgar. Observa os sinais com que assinalaste os teus atos, recordando que a marca do Cristo é, fundamentalmente, aquela do sacrifício de si mesmo para o bem de todos.

Livro Vinha de Luz – Chico Xavier – Espírito Emanuel.

sábado, 20 de abril de 2019

O ÓBOLO DA VIÚVA


5. Jesus, estando sentado em frente ao gazofilácio, observava como o povo nele deitava o dinheiro, como as pessoas ricas davam muito. Veio então uma pobre viúva que colocou apenas duas pequenas moedas. Então Jesus, tendo chamado seus discípulos, lhes disse: Eu vos digo, em verdade, que essa pobre viúva deu mais do que todos os que colocaram no gazofilácio, pois todos os outros deram o que era de sua abundância, mas esta deu de sua penúria, até mesmo tudo o que tinha e tudo o que lhe restava para viver. (Marcos, 12:41 a 44; Lucas, 21:1 a 4)
6. Muitas pessoas lamentam não poder fazer todo o bem que desejariam por falta de recursos suficientes e desejam a riqueza, dizem elas, para fazer da fortuna um bom uso. Sem dúvida a intenção é louvável e talvez muito sincera em alguns, mas será que é totalmente desinteressada em todos? Não há aqueles que, desejando fazer o bem aos outros, ficariam felizes se começassem primeiro a fazer o bem para si mesmos? Se permitirem mais prazeres, se proporcionarem um pouco mais do luxo que lhes falta, com a condição de darem o resto aos pobres? Esta segunda intenção, oculta, disfarçada, que encontrariam no fundo de seus corações se o interrogassem, anula o mérito da intenção, visto que a verdadeira caridade faz o homem pensar primeiro nos outros, para depois pensar em si mesmo. O sublime da caridade, neste caso, seria procurar em seu próprio trabalho, pelo emprego de suas forças, de sua inteligência e de seus talentos, os recursos que faltam para realizar suas intenções generosas. Aí estaria o sacrifício mais agradável ao Senhor. Infelizmente a maior parte das pessoas sonha com meios fáceis de se enriquecer rapidamente e sem trabalho, correndo atrás de ilusões, como as descobertas de tesouros, uma oportunidade favorável, recebimento de heranças inesperadas, etc. O que dizer daqueles que esperam encontrar auxiliares, entre os Espíritos, para ajudá-los nas pesquisas dessa natureza? Certamente não conhecem o objetivo sagrado do Espiritismo, muito menos a missão dos Espíritos, a quem Deus permite se comunicar com os homens. Decorre, por isso, serem punidos pelas decepções. (O Livro dos Médiuns, questões 294 e 295)
Aqueles cuja intenção está isenta de todo interesse pessoal devem se consolar com a sua impossibilidade em fazer o bem que gostariam, sabendo que a dádiva do pobre, como no caso da viúva no ensinamento de Jesus, que deu do pouco que possuía, pesou mais na balança de Deus do que o ouro do rico que dá sem se privar de nada. Sem dúvida, seria grande a satisfação de poder socorrer largamente a pobreza; mas, se isso é impossível, é preciso se submeter e se limitar a fazer o que se pode. Aliás, não é apenas com dinheiro que se podem secar as lágrimas e não é preciso ficar inativo por não possuí-lo! Aquele que quer, sinceramente, ser útil aos seus irmãos encontra mil ocasiões para fazê-lo. Quem as procura, as encontrará, seja de uma maneira ou de outra, pois não há ninguém que, dentro de um padrão de vida normal, não possa prestar um serviço, prestar-se a uma consolação, aliviar um sofrimento físico ou moral, fazer um esforço útil. Na falta de dinheiro, cada um não possui seu trabalho, seu tempo, seu repouso, dos quais pode dar uma pequena parte? Aí também está a dádiva do pobre, o óbolo, a esmola da viúva.

CARIDADE E VOCÊ

Acredita você que só a caridade pode salvar o mundo; entretanto, não se demore na posição de comentarista.
Não nos diga que é pobre e incapaz de contribuir na campanha renovadora da sublime virtude.
Senão vejamos.
Se você destinar a quantia correspondente a um refrigerante ou um aperitivo em cinco doses, segundo os seus hábitos, aos serviços de qualquer hospital, no fim de um mês haverá mais decisiva medicação para certo doente.
Se você renunciar ao cinema de uma vez em cada cinco, endereçando o dinheiro respectivo a uma creche, ao término de duas ou três semanas, a instituição contará com mais leite em favor das crianças necessitadas.
Se você suprimir um maço de cigarros em cada cinco de seu uso particular, dedicando o fruto dessa renúncia a uma casa erguida para os irmãos distanciados do conforto doméstico, em breve tempo o agasalho devido a eles será mais rico.
Se você economizar as peças do vestuário, guardando a importância equivalente a uma delas em cada cinco, para socorro ao próximo menos feliz, no fim de um ano disporá você mesmo de recursos suficientes para vestir alguém que a nudez ameaça.
Não espere pela bondade dos outros.
Lembre-se daquela que você mesmo pode fazer.
É possível que você nos responda que o supérfluo é seu próprio suor, que não nos cabe opinar em seu caminho e que o copo e o filme, o fumo e a moda são movimentados à sua custa.
Você naturalmente está certo na afirmativa e não seremos nós quem lhe contestará semelhante direito.
A vontade é sagrado atributo do espírito, dádiva de Deus a nós outros, para que decidamos, por nós, quanto à direção do próprio destino.
Todavia, nosso lembrete é apenas uma sugestão aos companheiros que acreditam na força da caridade e só ganhará realmente algum valor se houver algum laço entre a caridade e você.

André Luiz

Livro O Espírito Verdade – Chico Xavier – Espíritos Diversos.

domingo, 14 de abril de 2019

OS INFORTÚNIOS OCULTOS


4. Nas grandes calamidades, a caridade se manifesta e veem-se campanhas nobres e generosas para remediar os desastres. Mas, ao lado dessas tragédias gerais, existem milhares de tragédias particulares, que passam despercebidas: é o caso das pessoas que jazem num leito de dor sem se queixarem. São a esses desventurados discretos e ocultos que a verdadeira generosidade sabe procurar sem esperar que lhe venham pedir assistência.
Quem é esta mulher com ar distinto, vestida de modo simples, embora com distinção, seguida de uma jovem também vestida modestamente? Ela entra numa casa de miserável aspecto, onde, sem dúvida, é conhecida, pois, à porta, saúdam-na com respeito. Onde ela vai? Sobe até um quarto humilde. Ali mora uma mãe de família cercada de criancinhas. Com sua chegada, a alegria brilha nas faces enfraquecidas. É porque ela vem acalmar todas as dores. Traz o necessário, acompanhada de doces e consoladoras palavras, que fazem aceitar o benefício sem se sentirem envergonhados, uma vez que esses infortunados não são de maneira alguma profissionais da mendicância. O pai está no hospital e, durante esse tempo, a mãe não pode suprir as necessidades da família. Graças a esta senhora, as pobres crianças não sofrerão nem com o frio nem com a fome. Irão à escola bem agasalhadas, no seio da mãe haverá o sustento para amamentar os pequeninos e, se entre elas alguma adoece, a boa senhora nenhuma dúvida terá em tratá-la em tudo o que necessite. Dali se dirigirá ao hospital para levar ao pai algum consolo e tranquilizá-lo sobre a situação de sua família. Na esquina, um veículo a espera, verdadeiro depósito de tudo o que doa a seus protegidos, que visita sucessivamente. Ela não lhes pergunta a sua crença nem sua opinião, pois, para ela, todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Quando termina a visita, diz a si mesma: Comecei bem o meu dia. Qual é seu nome? Onde mora? Ninguém o sabe. Para os infelizes, é um nome que não revela nada, mas é o anjo da consolação. E, à noite, um cântico de bênçãos se eleva por ela até o Criador: católicos, judeus, protestantes, todos a bendizem.
Por que se veste de uma maneira tão simples? É que não quer insultar a miséria com seu luxo. Por que sua jovem filha a acompanha? É para ensinar-lhe como se deve praticar o bem. Sua filha também quer fazer a caridade, mas sua mãe lhe diz: “O que podes dar, minha filha, se nada tens de teu? Se te dou algo para dar aos outros que mérito terás? Na realidade serei eu quem estará fazendo a caridade, e tu terás o mérito. Isso não é justo. Quando formos visitar os doentes, tu me ajudarás, já que cuidar deles é dar alguma coisa. Isso não te parece suficiente? Nada é mais simples: aprende a fazer coisas úteis, e confeccionarás roupinhas para essas crianças. Dessa maneira, darás algo que vem de ti”. É assim que essa mãe verdadeiramente cristã forma sua filha para a prática das virtudes, ensinadas pelo Cristo. É espírita? O que importa!
Para a sociedade, é a mulher do mundo, pois sua posição o exige. Mas ninguém sabe o que ela faz, pois não quer outra aprovação senão a de Deus e da sua consciência. Entretanto, um dia, um acontecimento imprevisto conduziu até sua casa uma de suas protegidas a oferecer-lhe serviços manuais. Esta a reconheceu e quis pedir a bênção à sua benfeitora. “Silêncio!”, disse-lhe ela. “Não diga nada a ninguém”. Assim também falava Jesus.

CARIDADE DO ENTENDIMENTO

"Agora, pois, permanecem estas três, a fé, a esperança e a caridade; porém, a maior destas é a caridade". - PAULO (I Corintíos, 13:13.)

Na sustentação do progresso espiritual precisamos tanto da caridade quanto do ar que nos assegura o equilíbrio orgânico.
Lembra-te de que a interdependência é o regime instituído por Deus para a estabilidade de  todo o Universo e não olvides a compreensão que devemos a todas as criaturas.
Compreensão que se exprima, através de tolerância e bondade incessantes, na sadia convicção de que ajudando aos outros é que poderemos encontrar o auxílio indispensável à própria segurança.
À frente de qualquer problema complexo naqueles que te rodeiam, recorda que não seria justa a imposição de teus pontos de vista para que se orientem na estrada que lhes é própria.
O criador não dá cópias e cada coração obedece a sistema particular de impulsos evolutivos.
Só o amor é o clima adequado ao entrelaçamento de todos os seres da Criação e somente através dele integrar-nos-emos na sintonia excelsa da vida.
Guarda, em todas as fases do caminho, a caridade que identifica a presença do Senhor nos caminhos alheios, respeitando-lhes a configuração com que se apresentam.
Não te esqueças de que ninguém é ignorante porque o deseje e, estendendo fraternos braços aos que respiram atribulados na sombra, diminuirás a penúria que se extinguirá, por fim, no mundo, quando cada consciência ajustar-se à obrigação de servir sem mágoa e sem reclamar é que permaneceremos felizes na ascensão para Deus.

Livro Ceifa de Luz – Chico Xavier – Espírito Emmanuel.

domingo, 7 de abril de 2019

FAZER O BEM SEM OSTENTAÇÃO


1. Tomai cuidado para não fazer vossas boas obras serem vistas diante dos homens; de outro modo, não recebereis recompensa alguma de vosso Pai que está nos Céus. Quando derdes esmola, não façais soar a trombeta diante de vós, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem honrados pelos homens. Eu vos digo, em verdade, que já receberam sua recompensa. Mas, quando derdes uma esmola, que vossa mão esquerda não saiba o que faz a vossa mão direita, a fim de que a esmola fique em segredo. E vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos dará a recompensa. (Mateus, 6:1 a 4)
2. Uma grande multidão seguia Jesus quando este descia do monte; e ao mesmo tempo um leproso veio a Ele e o adorou dizendo: Senhor, se quiseres podes me curar. Jesus estendendo a mão tocou-o e disse-lhe: Assim o quero, fique curado. E nesse momento a lepra foi curada. Depois Jesus lhe disse: Não diga isso a ninguém; mas vá mostrar aos sacerdotes e ofereça o donativo prescrito por Moisés, a fim de que isso lhes sirva de testemunho. (Mateus, 8:1 a 4)
3. Fazer o bem sem se exibir, sem ostentação, é um grande mérito. Esconder a mão que dá é ainda mais louvável. É o sinal indiscutível de uma grande superioridade moral, porque, para compreender além da vulgaridade comum as coisas do mundo, é preciso elevar-se acima da vida presente e se identificar com a vida futura. É preciso, em uma palavra, colocar-se acima da Humanidade para renunciar à satisfação que o aplauso dos homens proporciona e pensar na aprovação de Deus. Aquele que estima mais a aprovação dos homens do que a de Deus prova que tem mais fé nos homens do que em Deus e que a vida presente vale mais do que a vida futura. Se disser o contrário, age como se não acreditasse no que diz. Quantos ajudam apenas na esperança de que essa ajuda tenha grande repercussão; que, em público, dão uma grande soma e que ocultamente não dariam nem um centavo! Eis porque Jesus disse: Aqueles que fazem o bem com ostentação já receberam sua recompensa. De fato, aquele que procura sua glorificação na Terra pelo bem que faz já se pagou a si mesmo. Deus não lhe deve mais nada. Resta-lhe apenas receber a punição do seu orgulho.
Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita é um ensinamento que caracteriza admiravelmente a beneficência modesta. Mas, se existe a modéstia real, há também a fingida, isto é: a simulação da modéstia. Há pessoas que escondem a mão que dá, tendo o cuidado de deixar à mostra uma parte da sua ação, para que alguém observe o que fazem. Ridícula comédia dos ensinamentos do Cristo! Se os benfeitores orgulhosos são desconsiderados entre os homens, muito mais o serão diante de Deus! Estes também já receberam sua recompensa na Terra. Foram vistos; ficaram satisfeitos por terem sido vistos: é tudo o que terão.
Qual será, portanto, a recompensa daquele que faz pesar seus benefícios sobre o beneficiado, que lhe obriga, de alguma maneira, os testemunhos de reconhecimento, que lhe faz sentir sua posição realçando as dificuldades e os sacrifícios a que se impôs por ele? Para este, nem mesmo existe a recompensa terrena, pois ele é privado da doce satisfação de ouvir abençoar seu nome. E aí está o primeiro castigo de seu orgulho. As lágrimas que ele seca em benefício de sua vaidade, ao invés de subirem ao Céu, recaem sobre o coração do aflito e o ferem. O bem que ele faz não lhe traz o menor proveito, pois, ele o lamenta, e todo benefício lamentado é moeda falsa e sem valor.
A beneficência sem exibicionismo tem um duplo mérito: além de ser caridade material é caridade moral. Ela respeita os sentimentos do beneficiado. Faz com que, em aceitando o benefício, seu amor próprio não seja atingido, protegendo assim sua dignidade de homem, pois este poderá aceitar um serviço, mas não uma esmola. Acontece que converter um serviço em esmola, conforme a maneira como é proposto que se faça, é humilhar aquele que o recebe e sempre há orgulho e maldade em humilhar alguém. A verdadeira caridade, pelo contrário, é delicada, habilidosa e sutil em disfarçar o benefício, em evitar até as menores aparências que ferem, pois toda contrariedade moral aumenta o sofrimento do necessitado. Ela sabe encontrar palavras doces e afáveis que colocam o beneficiado à vontade em face do benfeitor, enquanto a caridade orgulhosa o humilha. O sublime da verdadeira generosidade é quando o benfeitor, invertendo os papéis, encontra um meio de parecer ser ele próprio o beneficiado frente àquele a quem presta um favor. Eis o que querem dizer estas palavras: Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita.

Trabalha servindo

Reunião pública de 26/6/59
Questão nº 676

A cada momento, o Criador concede a todas as criaturas a bênção do trabalho, como serviço edificante, para que aprendam a criar o bem que lhes cria luminoso caminho para a glória na Criação.
Não permitas, portanto, que o repouso excessivo te anule a divina oportunidade.
Assim como o relaxamento é ferrugem na enxada, a benefício do joio que te prejudica a seara, o tempo vazio é flagelo na alma, em favor das energias perniciosas que devastam a vida.
Não há corrosivo da ociosidade que possa resistir aos antídotos da ação.
Não acredites, desse modo, no poder absoluto das circunstâncias adversas, a se mostrarem, constantes, nos eventos da marcha.
Se a injúria te persegue, trabalha servindo, e o sarcasmo far-se-á reconhecimento.
Se a calúnia te apedreja, trabalha servindo, e a ofensa converter-se-á em louvor.
Se a mágoa te alanceia, trabalha servindo, e a dor erguer-se-á por utilidade.
Se o obstáculo te aborrece, trabalha servindo, e o embaraço surgirá por lição.
No trabalho em que possas fazer o melhor para os outros, encontrarás a quitação do passado, as realizações do presente e os créditos do futuro. E é ainda por ele que conquistarás o respeito dos que te cercam, a riqueza da experiência, a láurea da cultura, o tesouro da simpatia, a solução para o tédio e o socorro a toda dificuldade.
Importa anotar, porém, que há trabalho nas faixas superiores e inferiores do mundo. Movimento que aprisiona e atividade que liberta, atração para o abismo e impulso para o Céu...
O egoísmo trabalha para si mesmo.
A vaidade trabalha para a ilusão.
A usura trabalha para o azinhavre.
O vício trabalha para o lodo.
A indisciplina trabalha para a desordem.
O pessimismo trabalha para o desânimo.
A rebeldia trabalha para a violência.
A cólera trabalha para a loucura.
A crueldade trabalha para a queda.
O crime trabalha para a morte.
Todas essas monstruosidades do campo moral representam fruto amargo e venenoso de audiências da alma com a inteligência das trevas, no palácio deserto das horas perdidas.
Todavia, o trabalho dos que trabalham servindo chama-se humildade e benevolência, esperança e otimismo, perdão e desinteresse, bondade e tolerância, caridade e amor, e, somente através dele, o espírito caminha, na senda de ascensão, em harmonia com as leis de Deus.

Livro Religião dos Espíritos – Chico Xavier – Espíritos Diversos.